Cem Truques, Nu Azul

Um Lugar com Vista para Além de Mim ...

A minha fotografia
Nome:
Localização: Lisboa, Portugal

Simplicidade colorida de azul com um guache de água de colónia, seria certamente algo apetecível pelo cheiro, nem que fosse... Um alfinete-de-ama embebido em leite, uma sobremesa nova... E a imaginação, um rosto desfigurado de real...

quarta-feira, setembro 07, 2011

new...

verde
pode ser verde a cor da nossa fruta.
refrescante, orvalhada, colhida de madrugada para nos dar de beber.
invento-te num sonho claro
venho dizer-te de nós dois...um dia destes.

busco em mim, de novo, as tranças que em miúda
me tornavam a mais bela das raparigas.
busco o traçado do empedrado que, de pernas hábeis, percorri até aqui.
busco o dia em que me trarás o Sol que escasseia agora, encoberto pelas despedidas
escusadas, usadas, necessárias para o cultivo.
sim, é de terra que falo. de terra pura, fértil, tornada seara de trigo
talvez pomar ou vinha.
horta de mil cores serena, íntima, perfeita.

acastanhado.
pela simplicidade da mistura das nossas peles
busco a nova receita para adoçar os dias. espero.
projecto-nos mil horas para além daqui
abrigo-me do mau tempo nas letras que me escorrem
que me seguram a lentidão de tudo.
confio no verde. pode ser a cor da nossa fruta...

domingo, março 13, 2011

absoluto relativo.

ambos somos

exagerados.

de tanto primar p'lo absoluto, relativizo talvez em excesso.

de tanto relativizares, vives em constante sufoco de absoluto. exageras.

ambos somos

insatisfeitos.

faces únicas de uma total moeda cuja espessura procuramos.

desconhecemos.

a expansão parece instável. impossível.

somos um circuito fechado. uma circunferência à procura de ser esfera.

exagerados.

somos unos. apenas um. simultâneos. fundidos.

paralelos.





ambos.

terça-feira, janeiro 25, 2011

perguntava-lhe outro dia...

se ainda quer saber dele

?

fez questão de negar...

a sorrir,

mentia!

----------------------------------------------------

não o procura mais em cada esquina

nem se lembra dele ao acordar

mantém-se serena discreta

(sombria)

observa-o de longe pelo buraco da janela que

mantém aberta do lado de dentro da porta da garagem onde o tem

arrumado.



fez questão de negar, disse que não.



perguntava-lhe outro dia se em breve o vai visitar

empalidece

distrai-se

prefere contrariar a vontade de o mudar para a prateleira de cima

e encaixotá-lo numa gaveta mais luzidia

- aquela que sobeja das peúgas gastas e rôtas que guarda também

ainda.



----------------------------------------------------------------------------

um dia vai faltar espaço

acumula coisas dentro de caixas.







------------------------------------------------------------------------------



talvez mude de casa

não precisa de garagem.

quinta-feira, junho 17, 2010

caiu-te o desespero.

caíste de novo.
o mais das vezes, encoraja-te a despedida. ou então
o desfecho previsto por ti embala-te na aventura de um sonho podre.
perdeste a palavra que te devolvia o lugar secreto da desventura.
caiu-te o não.
perdeste o engenho que te alimenta a desgraça.
a graça de uma só noite
desperta-te para o precipício.
enfureceste-te.
bateste com a porta na cara de alguém.
caiu-te o desespero.

caíste-te.

quinta-feira, maio 27, 2010

amo-te.

"Aquecida pela água cálida e macia que lhe envolvia o corpo, fechou os olhos.
Entre cada uma das lágrimas de felicidade que saboreava nos lábios adocicados por um beijo dedicado, imaginou...se
:
um terreiro distante, aberto
sem linha do horizonte. apenas uma porta a separava da fronteira do frio que fazia lá fora. batia.
em ritmos intermitentes, ora com força, ora de mansinho, abria e fechava contornando-lhe as linhas do busto desenhadas a cinzel por um deus já velho e sem barbas. atento. delicado.
cabelos soltos, negros brilhantes esvoaçavam mostrando-lhe o rosto perfeito. Sorria.
Olhava em frente para o absoluto e recebeu-o na nesga que, de repente, se anunciou parada.
O vento abalou.
no regresso inevitável, ele mostrou-se de novo sem objectivos. veio porque sim. por saber que ali há um abrigo à sua espera. Entrou.
nada disseram. A casa é tua. Podes dormir por cá.
Dormiram. Serenos. Despidos.

Imaginou...se
:
Nunca lhe dirá do seu amor profundo.
recorda-se apenas que um dia
numa banheira de água quente e por entre cada uma das lágrimas de felicidade que saboreou
encontrou o espaço interior onde finalmente escreveu para sempre
amo-te.
"

quinta-feira, maio 13, 2010

...até já!

“... no silêncio de mim, orei.
barafustei contra Deus, contra a Vida, contra tudo.
contra ti.
em desespero de causa, cobrei um Amor à força. um Amor que me aplacasse o grito.
que me fizesse de novo folha branca. sem história recente ou passada.
sem dor.

sofri.

procurei re-escrever-me em busca de uma nova pessoa.
perdi-me em actos desventurados, tentando enganar os golpes
da seringa que me tatuava a alma por dentro.

chorei.

fiz-me monja por um dia.
desci ao fundo do inferno de uma solidão vazia.
escondi-me da chuva, do frio, das estações. do luar que me albergava.
fugi. de ti.
fingi que me ia embora. supliquei que me esperasses. fica. fica, disse baixinho.
espera-me.
aguarda que me recupere do destempero. que me refaça da tareia que levei.

... no silêncio de mim, escutei-te por inteiro.
retomei ao passo de um compasso preciso e rigoroso
a fé no Vínculo. mais do que um laço.
serenei.
ouvi-te dizer: que bonita que estás!
repeti-te mil vezes nas frases que não ouvi.
reli-te ao pormenor, nos traços dos desenhos que fizeste para mim.
senti o cheiro da tua pele. entranhado na minha. palpei o negro
dos teus cabelos, na ponta dos dedos que, fiéis, são capazes de assinar o teu nome em qualquer lugar.

recebi o teu abraço espontâneo, em tamanha serenidade.
mantendo a tranquilidade que, entretanto, veio de novo até mim.
povoa-me a graça do teu olhar, do teu sorriso, do teu: até já..."

sexta-feira, abril 23, 2010

coração parado.

deu-se conta, na noite passada, que o seu coração deixara de bater.
por ele. por nada.
no movimento brusco e desmesurado do combóio que sentia a entrar num túnel fechado
desligou-se do hábito que trajava para, de seguida, envergar apenas um lençol.
deitara-se ainda com uma lembrança do cheiro a colónia natural que lhe adocicava o tronco,
mas logo logo se apercebera de que o seu coração parara!

pelas tantas da madrugada, um desconhecido batera-lhe à porta.
sonhava que lhe tinha trazido um sopro, um gemido, talvez um rebento de cravo
transvestido de uma cor exótica. adormecera.
parara.

luto feito, terminou de bordar o manto com que se tapara.
prometera-lhe que o enterraria junto da árvore situada no meio do laranjal. por nada.
por ele. parara.
avança agora na noite escura, pintando sonhos cor de marfim. quase tudo o que conquistara
se desvaneceu na bruma de uma solidão procurada...

quarta-feira, abril 14, 2010

diamante ou túlipa...

negra sou. rara!
inquieta talvez, difícil de integrar.
não consegues desvendar-me. compreendo-te o grito
que gostarias de poder dar.

distrais a dor que não suportas.
o silêncio, de tão puro, desconcentra-te.
perdes-te. rodopias em notas soltas na esfera
desconcertante. perfeita? desfeita.
iludes-te. esfomeado que estás do brilho alheio
negas a tua opacidade.
......................................................................
mentiroso.
despeitado.
obrigas-me a condescender-te.
imbecil, desnaturado. vingativo, desmesurado.
frustra-te enquanto eu, durmo compassivamente
nas cores de um arco íris duplo.

sábado, abril 10, 2010

mas...

"...acende um cigarro que apaga logo a seguir... prometeu a si mesma que jamais o faria, mesmo sem ter motivo para tal! Mais fácil seria se amasse como outrora, mas...!

há sempre um mas antes de todas as coisas! antes da certeza que esperava ter algures de que valeria a pena ficar assim, sem vícios, sem calamidades, isenta de todas as imperfeições que fazem dela motivo de decepção.

decepciona-se a si própria, ou talvez tente convencer-se de que num lugar qualquer, mais lá para o fim do tempo, existe alguém que lhe sustente o sentido que a vida, entretanto suspensa, lhe roubou de novo.

justifica-se com a des-sorte. não consegue evitar de se lamentar por ter comprado de novo, um pacote de cigarros. acende um que apaga logo a seguir... prometeu a si mesma que a promessa que jurou seria motivo suficiente para não voltar a tocar no assunto, mas...!

há sempre um mas qualquer que justifica um impulso. um desejo impronunciado. uma fraqueza, diz-se a si mesma. releva-se, descontrai-se. escreve.

evita dar sequência ao que a memória lhe traz. mas... lembra-se de quando em vez do último que fumou inteiro, até ao filtro. fumáva-os sempre até ao filtro. agora é a vida que a fuma. ela apagou-o desta vez. não o fumará inteiro, nem até ao fim. em nome da memória. em nome da terra mãe. do presente desalojado de futuro. mas... mesmo assim."

terça-feira, março 16, 2010

suspensão.

traços suspensos escorregam nas bacias
das portas fechadas
sombrias
desnatadas ao fim de tanto, tanto tempo.
mortes concisas
esburacadas, premeiam os pobres que
estão de braços postos, sorrindo
naquela ombreira
vadia.
pontes feitas de dedos entrelaçados
esperam sentadas à luz do dia
pelo entardecer da madrugada.

pontos travessas interrogações.
camas perfeitas, esbranquiçadas
acolhem os loucos que anseiam que passe.

permanecem em suspensão.

terça-feira, março 09, 2010

o teu nome...

... não me sai da cabeça. e,
se fosse só na cabeça que teima em permanecer, talvez não me
desse ao trabalho de voltar a escrever. sabes como o teclado me irrita e
o quanto canto vitória de cada vez que consigo passar um tempo sem lhe tocar. mas,
que queres? o teu nome não me sai da cabeça.

(pausa)

escuto-a em conversa velada com o companheiro de viagem.
tomam um chocolate quente numa chávena elegante, ainda que não a partilhem.
parece-me ouvi-la dizer: "amo-o, não tenho dúvidas disso, entendes?"!
ele é mais velho. brilham-lhe os olhos quando olha para ela e, contudo, acena que sim com a cabeça! ele sabe que ela lhe diz a verdade, e quando é a verdade que impera, nada mais há a fazer senão escutá-la - levá-la a sério.
a idade e a experiência indicam-lhe que ela se ilude, pelo menos assim lhe dava jeito que fosse. não teria que lidar com um adversário tão grande.

o amor é terrível, escuto eu do meu lugar!

(pausa)

aos 40 anos chego perto da mudança.
dei-me conta que levanto o braço direito algumas vezes(sobretudo quando me sinto
em êxtase) e me represento como que agarrando a mão de Deus. agradeço
e devolvo-lhe o gesto pelo bem estar que sinto nessas ocasiões.
falta pouco para tudo, penso para mim.
sei que espero, talvez em vão, talvez sem nexo. mas, espero.
entendo perfeitamente os termos do diálogo mudo que comigo estabeleces.
já não precisamos de conversar. as palavras não chegam, nem servem para dizer do que sentimos. já não nos fazem falta.

.....................................................................................



o sorriso dela abre-se de forma inigualável quando repete o seu nome.
não lhe sai da cabeça. tem-lo gravado no coração.

sexta-feira, março 05, 2010

no reverso...


.. existe uma casa
arruinada
talvez sozinha,
isolada!
no labirinto dos arrozais
submersos pela subida das marés
encontro-me no espelho que de mim teço
vazia
serena
tardia...

desperto para a fantasia
de um sonho por terminar.
cedo descubro que pus fim ao sacrifício
e embalo-me na espuma de outros dias
num devir por acontecer!


(Fotografia: Jorge Pereira)

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

a demanda.

"Alberto convidou Maria Caetana para o acompanhar numa viagem de lazer.
Costuma fazê-la todos os anos, mais ou menos por altura do início do Inverno. Dava-se o caso, portanto. Nas datas pensadas a estação era ainda jovem, motivo bastante para ninguém se escapar ao passeio naquele fim de semana prolongado. A chuva ou o frio são, hoje em dia, contornáveis pelos ares condicionados dos carros, que iludem, com um simples toque no botão certo, um Verão eterno. O local escolhido é indiscutivelmente belo – Universal!
Maria Caetana aceitou.

Estava intrigada havia meses sobre quem era afinal, Alberto.
Num jantar à luz de velas ele dissera-lhe as palavras únicas e totais que um dia, ela mesma proferira junto de alguém, morto entretanto, a quem amara. Reconhecera-as e, em parte, dentro de si, algo se iluminou como que trazendo de volta, à vida perdida, Carlos – o homem que a tinha feito sentir que o Além pode ser Real...
Sem nunca ter pensado em cruzar-se com a sua suposta “alma gémea”, e definindo-se a si mesma, por princípio ou necessidade, como absolutamente céptica, viu-se de repente envolvida num sentimento estranho (que a remetia para um passado desconhecido e irrecuperável pela memória) de reconhecimento de Carlos. A sensação de o conhecer de algures, desde sempre, de lhe ter sido íntima de alguma forma – muito próxima – alterou-a por dentro, esclarecendo-a com relação à demanda: procurava o Interlocutor da sua vida!
Não havia dúvida. Maria Caetana estava mudada: tinha crescido, estava finalmente a Sonhar.
...................................................................................

Alberto disse-se sem Interlocutora.
Alberto falou-lhe desse reconhecimento.
Alberto revelou da sua Fé no Amor, a Maria Caetana, num jantar à luz de velas, meses antes do passeio.

Intrigou-a!

Fê-la (talvez) acreditar que o seu cepticismo poderia dar lugar à devoção, acaso Carlos retornasse à sua vida, através de Alberto!"

(A busca do Interlocutor, justifica qualquer demanda!)

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Até 2010!

nunca fui para ti eu mesma
mas sempre a imagem exacta do teu desejo.
não foi comigo que sonhaste. não me conhecias de antes
nem tão pouco estás disponível para me descobrir:

procuraste desvendar-te a ti

num espelho claro e profundo que te revelasse capaz de
ser sonhado.

feitas as contas, não precisas mais de mim -
sou afinal alguém que não te interessa.

Só a força do teu desejo te convém.

domingo, novembro 29, 2009

equívocos.

pudessem ser decifrados
os equívocos do amor
e eu
seria eterna
em ti
para sempre, Mulher!

sexta-feira, novembro 20, 2009

a vida no instante aqui.

...deixei de me perguntar há algum tempo
se me resta o que quer que seja
:
pedaço de tempo, espera ou ausência.

deixei de acreditar num regresso repetido eterno.
em vão me iludiria
.
não tenho amanhã. não tenho mais perguntas para fazer.
- cumpro decidida e determinada a cada pedra que encontro
o texto de mim, único, incorrigível, irrepetível.
definitivo
em cada aqui e agora deste

tempo que é o meu...

terça-feira, novembro 03, 2009

Elogio da cobardia.

Não gosto de me ver a ser cobarde,
mas a experimentação do novo, em mim,
é quase um vício...

terça-feira, outubro 27, 2009

cem novo.

Se te disser que preciso de me sentir, de novo, esvoaçante,
que quero perder de vista o rasto da sensatez ou
mandar borda fora os grilhões da maturidade...
Se te disser que quero viver outra vez
uma segunda sinfonia
num embarque sem hora marcada
..............................................
pudesse eu ser um poema sem autor definido
para assim poder corrigir a minha assinatura

Se te disser que perco a força
quando desloco o vento com a mão direita
e que percorro as grutas de um só movimento,
procurando acautelar que chegarei inteira ao fim do percurso
......................................................................
talvez percebas a lógica do desencanto
do tormento em falta
da escassez de vestes brancas no meu armário das surpresas.

Se te disser que só vivo
se me apaixonares, e que
só te devolvo as perdas se me prometeres que
definitivamente me lanças a esfera do perfeito sentido
............................................................................
talvez me sintas um pouco mais

terça-feira, outubro 20, 2009

sim, vou andando...

escrevo-te
digo-te de mim
de ti (para ti) que estou bem.
sim, vou andando...
digo-te
que me escasseiam as palavras
que queria continuar a soprar devagarinho
enquanto pego na caneta de pau de canela castanha
e desenho, ainda,
o teu rosto de cor no meio dos meus lençois.
não vêm
não aparecem
quais torrentes que outrora me sofucavam segredando-me
que te segurava na ponta dos meus dedos.

pressinto-te
tateando até um palmo abaixo do chão
o grão da minha pele suave redonda
revelando
nos ditos que descuidas escapar o quanto
me esperas também.
toma cuidado não te desvies nem desvirtues a rota
que é a tua.

fora de mim. Escrevo-te.
sem palavras novas nem pintadas de verde alface.
serei nunca, dentro de ti
Nada...

quarta-feira, outubro 07, 2009

re-edito. re-digo. relembro.

Fujo ao destino ou tento fugir-lhe
acreditando que posso desafiar Deus e, com uma palavra minha
escolher.
Decido terminar contigo como quem interrompe
uma vida futura com futuro incerto porém garantido
com ar esperto e espevitado.
Choro
não sei se de prazer ou de dor como outrora não sabia que
falando
podia mandar construir o mundo à minha medida.
Como outrora não sabia que como quem faz um bordado
é desfiando a linha que se costura.
Não sabia como era caminhar na praia escura
chapinhando à beira mar
sozinha.

Outrora o tempo não passava de uma metáfora estrelada que, de par em par
se abria cruzando taças de vidro gelado preparadas para
receber os hóspedes.
Estou curiosa agora.
De novo, estou curiosa!
Parto em busca do que não há
do que nunca vi
do que sinto que me espera num outro lugar:
no mundo.

Envio flores ao vizinho do lado e curvo-me
perante a ideia da liberdade.


(Encontrei-me hoje com este meu texto, escrito à mão num moleskine guardado, mas nunca, nunca perdido! Achei por bem re-publicado, talvez para que não me esqueça de mim, e do quanto já me inspirei a mim mesma!)

quarta-feira, setembro 16, 2009

A Eternidade e o Desejo.

Relendo Clara.
Relembro: "À terra que me dá a Vida, não posso oferecer menos do que a minha Vida".

Maria.
Digo: À Solidão que me escraviza, não posso oferecer mais do que a minha Liberdade.

Onde fica o medo?
Guardado no cofre da minha memória...

terça-feira, agosto 25, 2009

Apeteces-me...

no empedrado das ameias niveladas
muito perto
enroscado no cimo do meu monte de vénus...

de madrugada
despido de tudo e de nada
no verde dos teus olhos que adivinho
salivando por mim como se num mar mergulhasses...

demorado
salpicado de gotas quentes do meu e do teu perfume
apeteces-me...
apertado quieto arfante
calado...

enternecido de orgulho exaltado
de braços envoltos na minha cintura

sonhado.

segunda-feira, maio 25, 2009

conjunto sem título.

Sentes-te nua face à enormidade da vida.
A injustiça não te perdoa,
exige-te antes, que te vergas, que te dobres...
Fá-lo-ás!
Navega segura por entre as fronteiras que desconheces,
descobre a cada passo alguém mais a quem abraçar
e verás
que a lua não deixou de ser tua.


.................................................................................

~Foste um herói sem história
mil páginas em branco de um livro por escrever.
Mar azul sereno em falso
no deambular das ondas de uma quimera.
Foste traço de um esboço por projectar
artefacto de um mundo às avessas.
Papel de seda amarrotado riscado por
tremuras cenas casebres tristes por
desvendar.
Segredo mal guardado, silêncio desconjurado
herege descrente esfarrapado.
Foste céu nocturno sem luar
trevas azedas de angústias mal ditas
tremendas.
Fado és.


Agora.

domingo, abril 05, 2009

Carta de uma Mulher para um Homem Anónimo.

"Apresentas-te-me com um porte de Príncipe, por vezes assumindo mesmo a altivez nobre de um Rei. Talvez o tenhas sido já numa outra vida tua, anterior a esta a que, nem eu nem tu temos acesso pelo simples processo usual da lembrança. Talvez seja daí que te conheço. Quem sabe? Talvez.
Agora, nesta vida que percorremos, constato sim que de Principesco ou de Nobre te resta apenas o porte, dado que a ambiguidade que te povoa e que, portanto, te atraiçoa, parece ser a tua verdadeira essência. Sim, a ambiguidade é e sempre foi tua. Por dentro ou por detrás das vestes ricas que fazes por envergar, escondes, como sabes, alguém que se sente um plebeu da mais modesta condição. E digo modesta porque te estimo e respeito: eu não sei quem terei sido em tempos esquecidos e por isso reservo-me, pela desconjuntura eventual do meu passado, a não te desconsiderar nem em milímetros. Sim, porque todos temos um passado.
Despido revelas-te como um pêndulo oscilante entre o pobre de espírito (o miserável), e o condenado à fúria dos pecadores (o de duvidoso carácter). Não te livras com facilidade de te sentires como menor pelas jóias que, entendes, deverias ter. Nada do que podes aprender te merece o respeito devido, pois nesta fase do caminho, ou serias ouro e pedras e tronos, ou nada. Para nada consideras que vales. Nada! Do outro lado, difícil continua a ser-te a resistência às tentações despudoradas que, entendes, não deverias querer viver, pois que te tornam menos digno da justiça que o Rei de outrora que albergas dentro de ti, te continua a exigir que sejas. Não mereces o amor de ninguém, pois que dele não te sentes digno!

Vergonha e Culpa são as tuas mais fortes energias. Nem o orgulho que, mesmo arrogante ou vaidoso que fosse, te poderia dar algum consolo, consegues alimentar devidamente. Escolhes antes esticar a corda dos outros, para ver se te suportas melhor por interpostas capacidades alheias de humanidade.
Para a tua pobreza de espírito, devolvo-te a minha compaixão; para o teu carácter duvidoso, o meu silêncio empático. É como te digo: eu não sei quem fui outrora. Hoje, sou uma mulher livre que, enquanto tal, se sente e sabe e se assume como inteiramente responsável pelas suas opções!"

segunda-feira, março 23, 2009

Irreversível.

Mesmo que quisesse não conseguiria
deixar de te amar
de repente.
Mais fácil foi enamorar-me de ti
inesperadamente
sem ter tempo de meditar ou questionar-me sobre o assunto.
Mais fácil seria agarrar-me a outro alguém qualquer
na tentativa de me enganar a mim mesma. Mais fácil seria
não viver isto que sinto.
Mas mentiria.

quarta-feira, março 18, 2009

Fio de seda.

Sinto-me como tecedeira de verbos
pegando em pérolas de gentes que percorro
atravessando como fio de seda
um colar de liberdades...

quarta-feira, março 11, 2009

Marlon Brando.

Marlon Brando vive na minha rua.
Traja jeans e t’shirt justa
Insinua-se
Despe-me o corpo com o olhar
não descansa.
corre na estrada do tempo
e avança.

Heis a frase que lança:
Quero-te!

quarta-feira, março 04, 2009

O homem do fígado podre.

" (...)Sabes que hoje recebi uma notícia triste. Morreu-me o homem do fígado podre.
O fígado não se compadece com conversas, trata-as como se fossem contas de um rosário partido, despedaça-as em menos de nada, e mata, pura e simplesmente. Lembrei-me de ti, de imediato, assim que recebi a notícia. Ficou completa a parte que faltava para aprender aquilo que me quiseste ensinar logo no primeiro dia em que nos vimos. De facto, há coisas que me ultrapassam, que eu não posso controlar, alterar, resolver. Disse-te que concordava contigo, ainda que da minha experiência, tivesse uma maioria de histórias de sucesso para contar. Disse-te ainda que acreditava sempre, e que esse era talvez o meu maior segredo. Também acreditei nele e embora a partir de hoje, não possa provar nunca mais que ele era viável, eu sei que era. Morreu de cirrose, não por falta do meu amor ou da minha disponibilidade humana para o ter comigo o tempo que fosse preciso para se recuperar a si mesmo e à sua verdade interior.

Lembrei-me também da última conversa que tivemos, eu e ele. Falámos precisamente de mentira e de verdade, e eu disse-lhe que confiava nele, mas não lhe podia subscrever a mentira que a si, de si, continuava a querer alimentar. Ele queria realmente morrer. Falava a sério quando pensou em atirar-se para debaixo do comboio da Póvoa. Ele achava que não, não queria crer. Era-lhe doloroso perceber isso. Preferia achar, e que eu lhe dissesse, que tinha sido apenas um pensamento menos bom que lhe ocorreu em tempos, por andar com a alma bêbada das limitações de que, entretanto, padecia. Mentira. Duarte, é mentira. Não se engane Duarte, porque é pior para si. Acha? Tenho a certeza, Duarte. Foi a operação à coluna que me deu cabo da cabeça. Deixei de poder tocar, e depois, foi a morte da minha mãe. Eu sempre bebi muito, era costume, mas a partir daí comecei a beber de forma diferente. Bebia mais, tinha que beber senão não conseguia dormir. Bebia para se anestesiar de si, para se ausentar, para se esquecer. Sim, bebia para não ver o que me era penoso. Para não saber da minha infelicidade. Pois. Para não saber da sua infelicidade. Mas, também para não se viver mais Duarte. Você não se sente capaz de se viver mais, daqui em diante. Não tolera a frustração da vida, dos embates que ela lhe trouxe ultimamente. Eu sei que já não venho a tempo. Tempo Duarte, tempo. Pois é, é sempre o tempo o que nos falta. É sempre o tempo que nos prega estas partidas. Mas, olhe que entretanto é melhor ir ver do fígado. Pois, pois, quero ir ao médico. Agora já estou decidido a ir. A minha irmã até me disse que qualquer dia tinha mas era que ir tratar dos dentes, que realmente precisam, mas eu disse-lhe, não primeiro tenho que tratar da cabeça, depois lá irei aos dentes. Sim, Duarte, tem que tratar da sua cabeça para que ela lhe albergue a dor do que já sabe - a dor da verdade que é a sua e da qual tem andado a fugir descaradamente..."

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

A força da ignorância!

"Pratice what you know, and it will help to make clear what now you do not know."

(Rembrandt)

A Ignorância é uma categoria descoberta na maturidade. O tanto que não sei, estimula-me a prosseguir!

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Ainda...

"(...) Não podes aprender-me agora, eu sei. Para que me aprendas, eu espero - não tenho pressa. O que ainda não sei, se bem que começo a sentir que resisto fortemente a aprender, é a amar devagar. Confesso. Eu não sei amar devagarinho como quem toca ao de leve num rosto que descobre de novo, apenas com a polpa mais externa da cabeça dos dedos das mãos. É daqueles toques que ficam para sempre gravados dentro de nós, ainda que seja dos mais simples e suaves e discretos que possam haver. Se quiseres, é um toque inocente. Quando feito por mim, de inocência pérfida. Não consigo amar a direito, com linhas e pespontos seguros e sem tormentos pelo meio. Não sou mulher de amores serenos, invísiveis, caducos. Raramente deixo cair esse lenço ou o deito borda fora, mesmo depois de apodrecido. Por isso, e por uns tantos cigarros que fumei durante anos, tive de parar de o fazer de repente senão morreria cedo de tanto entupimento...!"

terça-feira, janeiro 13, 2009

Arrogância de Narciso!

"Foges constantemente como quem pretende travar uma batalha contínua capaz de negar as perdas e ganhos sucessivos que, de quando em vez, te atrapalham a marcha. Queres combater o tempo que contornas na tua vida, e ofender o espaço que sentes mediar algo de teu contigo mesmo, sem saber ao certo de que tens medo, afinal! Sim, é de medo que julgo tratar-se! Do medo que te leva a mentir descaradamente, ou a ter como passatempo preferido o esvaziamento de ti, procurarando com isso retirar ao outro todo o conteúdo significante. A tua meta mais ambicionada parece ser um absoluto despropósito: arrasar com o diálogo em toda a sua linha mestra. O diálogo interior - aquele em que te dirias nas esperanças que albergas de que um dia, alguém por ti idealizado te vem dizer que és especial (talvez mesmo especialíssimo!), que se quer hipotecar por inteiro a ti, que te ama incondicionalmente e que dispensa que lhe dês de volta o que quer que seja. O diálogo exterior – aquele em que te confrontarias com a liberdade allheia, com a diferença, com exigências de seres chamado a satisfazer necessiadades outras que não as tuas. Odeias o diálogo que constrói uma narrativa – aquele que denuncia o laço que te segura, conforta e afaga a existência. Aquele de que dependes: odeia-lo! Odeias-te! Numa parte de ti, odeias-te. Na outra, amas-te como se ideal fosses: deus! De ambivalência em ambivalência, de fuga em regresso e de novo, em fuga, atravessas o caminho sem dares um único passo na direcção certa..."