Cem Truques, Nu Azul

Um Lugar com Vista para Além de Mim ...

Nome: Azul
Localização: Lisboa, Portugal

Simplicidade colorida de azul com um guache de água de colónia, seria certamente algo apetecível pelo cheiro, nem que fosse... Um alfinete-de-ama embebido em leite, uma sobremesa nova... E a imaginação, um rosto desfigurado de real...

Segunda-feira, Maio 19, 2008

Partilha.

Há reflexões dentro de nós que, volta não volta, re-surgem como necessárias.
Em tempos, enquanto me deitava regularmente num divã de costas voltadas para alguém que, pacientemente me ouvia, perguntava-me entre tantas outras coisas, o que seria eu capaz de fazer por amor. É daquelas perguntas banais que qualquer ser que se dedique a pensar-se de uma maneira tão íntima e profunda, esbarram em nós, como que procurando-nos, sustentando a busca desembaraçada que empreendemos para percebermos quem somos.
Lembro-me que a resposta que dava a mim própria nesse tempo já distante, era de que estaria disposta a muito pouco. Basicamente, a muito pouco. Estava aparentemente segura de que o que tinha, onde estava, o que sabia e, sobretudo, o que queria privilegiar na minha vida, não passava por me disponibilizar a mudanças de grande porte, em nome de um tão falado amor.
Dito de outro modo, não me via, na altura a que me refiro, a viver um amor com alguém que justificasse grandes mudanças ou alterações na minha vida. Queria convencer-me de que o amor que tinha conhecido, até então, me bastava. Queria esconder de mim mesma a verdade maior: a de que há muito tinha deixado de acreditar que esse amor que justifica a mudança (que, simultaneamente promove a mudança, o progresso, porque acrescenta a cada um dos amantes, conhecimento sobre si próprio e sobre a vida) teria algum dia, lugar na minha vida.
Resposta feita, concluída. Não se fala mais nisso! - disse-me em segredo - para não ter de perceber que, para além da minha descrença acentuada, o amor que tinha conhecido até então me tinha magoado a valer.
Lembro-me que me dizia que amar a um outro era algo de essencial para mim, mesmo que o retorno que desse movimento obtivesse, fosse escasso, insatisfatório. Na verdade, queria convencer-me de que deveria ser como mais ninguém, isto é, deveria suportar como bastante, amar, mesmo sem me sentir amada de volta.

Admito que dificilmente suportei perceber na altura que, para além da descrença que me habitava relativamente ao amor, obrigava-me a uma espécie de pacto com o diabo! Mentia-me! Atraiçoava-me! Submetia-me a uma indiferença que passou a ser de mim, para mim mesma. A um abandono repetido, intrangisente que, em surdina me dizia, insistindo, para que não me aventurasse. Achava eu que não valia a pena. O Amor. Eu. A minha vida. Não valia a pena...

Reflicto de novo, anos passados. Que sou eu hoje capaz de fazer por amor? Pergunto-me outra vez.
Dá-me vontade de rir, agora!
Desta vez não sei responder...

Quinta-feira, Maio 08, 2008

Despertar.

Há muito que aguardo um Sábio
Que me indique a hora, o lugar
Talvez mesmo o patamar
para onde posso progredir.
Certa de que ouço cantar,
Navego aos bocados por entre nuvens
Desfeitas, dispersas
Atenta ao sinal do devir.
Fruto da ocasião
Proposta a cena aberta,
Confio a caneta à madrugada
Escuto o som do mar,
abro o coração:

.........................................................
fico desperta...

Terça-feira, Abril 22, 2008

Another letter, baby!

"Preciso de acreditar que sou uma poetisa natural, ainda que reconheça não ter o talento devido (menos ainda, o esperado!) na arte da escrita literária.
Preciso de acreditar que saberás ler na minha des-conjuntura aquilo que, em tempos nunca vividos, recebo agora da tua presença real.
Preciso de exercer a minha modéstia a cada assentar do nível, que me esforço por colocar na parede da minha casa interior, bem como da minha sensatez, no movimento ponderado e leve necessário a esse gesto, para que possa dizer com clareza o que escuto viver, e me parece ser de uma beleza ímpar.
Dedico as minhas energias a espreitar pelas janelinhas que se abrem a cada instante, e me permitem ver o mundo que me revelas. Quero aprender contigo o manual completo da diferença. Descubro que o desconheço tanto quanto me fascina e atrai. Quero viajar entretanto, como quem desenha um novo mapa de referência, para me orientar na massa do planeta humano. Leio páginas seguidas de um romance eterno, enquanto me banho do sol que faz as delícias da minha cor. Procuro nelas, saboreando vidas alheias, contar os pedaços do meu imaginário, e cortar de vez com o passado já perdido. Quero construir contigo um barco de madeira, talvez uma casa à beira de um rio ou até uma nave espacial. O que importa mesmo é que seja um albergue, um abrigo, um lugar só nosso para onde podemos sempre voltar. De preferência, quero que tenha terra em volta para cravar lá as minhas mãos como quem amassa bolos-rei no Natal, semeando todos os dias alguma coisa que cresça e alimente a minha fé e vontade de poder continuar a confiar naquilo que me faz sentido... Adoro-te!..."

Segunda-feira, Abril 14, 2008

Voz.

Era uma vez um homem
cuja Voz me seduziu.
Letras soltas, risos dispersos,
beijos trocados com sabor a pimenta
enleiam-me na travessia da descoberta.
Cenas de filmes não vistos
num arrebatar da alma
prendem-me o coração
suspendendo em mim,
o tempo que corre...
Pára o relógio da história,
arranca o caminhar sereno.
Passeios à beira do Tejo
desvanecem a dúvida que resta...
Escuto o som da renovação e
segredo para mim mesma
que acabo de ler a sina da exactidão.

Quinta-feira, Abril 10, 2008

carta.

"Em dias de tempestade como o de hoje, resta-me escrever-te uma carta de amor.
Sim, de amor. Ouviste bem.
Sabes como sou, por vezes, mesquinha com a mania das palavras e do uso que teimo em querer que façamos delas. Gostaria que elas me servissem sempre, sempre como idealizei: que me servissem para expressar rigorosamente o que penso e sinto a cada instante.
Lembrei-me hoje, que em tempos te pedi que retirasses do vocabulário que usas a palavra amor, por algo que em mim, admito, talvez se possa assemelhar a uma espécie de pudor acerca do seu conteúdo. Estou certa de que nessa altura foi o pudor que me levou a tal solicitação. Contudo, devo pedir-te desculpas pela limitação a que, entretanto, te votei na expressão livre do teu sentir. Limitei-me a mim mesma sem pensar nisso, na recepção de algo que me dirigias e que eu, afinal, deconhecia.
Não, não vou questionar-me mais acerca do que esta palavra significa, ou a que conteúdos rigorosamente se refere, uma vez que importa agora que seja capaz de me desculpar pela forma grosseira e egoísta com que te tenho recebido interiormente. Na verdade, se o pudor me obrigou a rejeitar tal palavra, o orgulho impede-me com frequência de pedir desculpa.
Gostaria de te dizer que tens sido para mim uma enorme descoberta, mais do que uma grande aventura. A ignorância que experimento em face de cada nova aprendizagem que contigo posso realizar, convece-me de que me enganei à primeira vista. Mais do que um castelo na areia, ou de um fugaz encontro, talvez o que me tenha acontecido seja algo de superior que ainda não sou capaz de nomear.
Desculpa-me, amor. Desculpa-me..."

(...)

Quarta-feira, Março 26, 2008

Fé.

Há gente lá dentro,
há gente.
Ouvem-se passos pequenos,
vozes que brincam à gargalhada.
Enormes os risos que, soltos,
se cruzam encetando
a caminhada.

Gente que brilha p’la gente
almas que dizem de si.
Lá dentro,
é sério o movimento.
É amplo, terno
e pungente.
São as estrelas da vida
as luzes do amanhecer.
Há gente lá dentro,
há gente
que luta p’lo acontecer...

Quinta-feira, Março 13, 2008

Tu.

Conheço as linhas do teu rosto
como as da palma da minha mão.
Gosto de passear por elas
vagueando os dedos pequenos
procurando a cada gesto
agarrar a mão de deus...

Traços marcantes e belos
revelam o curso do tempo.
Rugas contadas de esperança
como pinturas rupestres
devolvem-me com exactidão
qual rigorosa sublimação
colinas, paisagens campestres...

Árvores, flores, bosques serenos
verdes
os detalhes pequenos
guardo-os escapando à razão. Adoro-os sem pudor
nem regra
nem sombra
oh! traço de perfeição...

Quarta-feira, Março 05, 2008

A porta.

palavras inteiras com gosto de roseiras bravas
ou um chá ao entardecer, palpitam coisas
serenas, grandes, seguras.
um verso pensado
dito em dia de sol escondido
resvala num toque inesperado
numa viagem sem destino marcado
ao abrigo de um cruzeiro que navega na madrugada.
os silêncios que definem a voz
ou a letra que se desenha no escuro
levam a que me curve perante o
século em que vagueio...

pontos de luz formam triângulos
às vezes círculos rectos e curvos.
ninguém escapa à linha mestra
à saudade cantada poética
ao abraço do costume.
é o hábito o tormento
a dor aquilo que se procura. é a chave da descoberta
aquela que mora e perdura
......................

deixa a porta aberta...

Terça-feira, Fevereiro 19, 2008

Ternura.

Bagas chovendo em circuitos abertos
devolvem-me o sabor do Verão e do Sol.
O líquido que delas se desprende quando as trinco
amaciam-me a alma
colorindo-a de tonalidades excitantes
pegajosas.
Escorre saliva p’la minha boca abaixo
pingando-me os seios descontraídos
desnudos:
Teus...

Alternadas quais ritmos incessantes repetem-se
palavras de Amor que refrescam
a paisagem dançante.
Os corpos fundidos ofegantes animam-se
disfrutam-se
enleiam-se apaixonados.

Animais à solta

Livres

Cabelos em tempo de vendaval
escrevem diários íntimos
indiscretos. Fascinam
pelos toques de branco que com o tempo
assumiram
riscando o preto original.
Fortes como amêndoas doces alimentam dedos
que se enrolam brincando
que se deleitam ao senti-los:
Meus...

Bolhas de sabão cheiroso massajam as peles já suadas.
Beijos partilhados à toa soam a miosótis
no jardim que imaginámos. Somos.
Queremos. Damos.

........

Sexta-feira, Fevereiro 15, 2008

Improviso.

(...)
a estrada estava vazia há horas. há dias. ninguém parecia querer lá passar e o luar que se arriscava no céu estava mais escuro do que o habitual
iluminado
apenas o portão velho que bate do outro lado da linha. ficou mal fechado da última vez e até hoje, basta uma leve brisa sorrir e ele bate bate bate amedrontado...
amedrontando
os gatos vadios que por ali vagueiam de vez em quando, quais Josefas encimesmadas beberricando água das mãos estendidas de alguém que lhes pega ao colo e as afaga no pêlo
despenteado... sons grotescos dispertam almas penadas perdidas ausentes de cor de ternura
terríficas abandonadas. dois alguéns em queda livre. em manutenção. em desvios serenos por ruelas sombrias históricas românticas. vadias... campas forradas de pó colocadas em fila
laranjas descascadas sumarentas e bolos aconchegam o sol que brilha de dia...
lâmpadas internas alumiam quais faróis indiscretos os recantos do olhar. é cedo. é hoje.
agora

Sexta-feira, Fevereiro 08, 2008

Paranoid Park.

(...)

"Movimento, por vezes alucinante, vibratório, ameaçador. Dinâmicas de imagem algo desconcertantes pela visão míope que nos provocam, pela visão desfocada num percurso de proximidade com distâncias “mal” calculadas. Melodias inesperadas, desconexas do contexto visual, mas que caiem bem. Muito bem. Curiosamente, caiem bem porque se vêem. Porque se transformam em quase-imagens rítmicas, como se fossem brincadeiras. Olhar revelador.Olhar inexpressivo. Olhar fixo. Sábio. Branco, de choque. Espaço entre o choque do vivido e o imaginário. Performances tranquilas quase nada treinadas, pelo menos aparentemente. Cenas sem ensaios prévios, quase quase espontâneas. Brilhantes, quotidianas. Claras, intensas, puras. (Conta-se uma história absoluta, de absoluto. De morte. De responsabilidade pelo outro. De culpa por imaturidade do olho que vê. Mas, também de lucidez. De enorme lucidez. De honestidade. De sapiência (insuspeita), não de horror. Insuspeita, porque ingénua ainda, por imaturidade do aparelho pensante, que se expandirá a partir da experiência quando ela tiver tamanho para ser contada. De uma beleza elevada, porventura alternativa. Artística. (Quase) perfeita humanamente)."

(...)

Sexta-feira, Janeiro 25, 2008

Pedaço de Prosa.

(...)

Carlos.

Devo dizer de ti, Carlos, que me inspiras como ninguém.

Engravidei de ti há alguns meses atrás quando te vi e ouvi dizeres o meu nome, quando me chamaste miúda na brincadeira, quando me permitiste beijar-te de forma ingénua, porque virgem dos teus lábios do teu gosto do teu sabor mentolado, com toques de toranja doce/amarga. Ainda não te tinha dito desta gravidez, como nunca te disse dos filhos que já perdi que já me morreram sem que pudesse amá-los devagarinho. Sonhei-os sem me sonhar a mim, porque a mim poucos sonharam. Ou talvez seja eu que sou ambiciosa demais...
A verdade é que trago um filho teu, comigo, agora. É um filho da madrugada, um filho puzzle que preciso de montar para que saia belo como tu. Para que saia são e a falar correctamente e com voz de quem tem algo a revelar. Quero que saia com carácter, determinado a ser bom e generoso como eu, e sobretudo, que saia sem réstia de mágoa pelo que fizemos já, os dois, aos outros, vida fora. Quero os nossos filhos por madrugadas adentro, feitos de conversas partilhadas, de salivas misturadas sem outras correspondências à mistura.

Inspiras-me Carlos, como ninguém.

Continuas a minha maternidade até agora exercida em silêncio, nos lutos travados dentro de mim, duradoiros, insuperáveis, mas vivídos com tanta tanta força, tanta dedicação. A minha maternidade travada em prol de todos os outros, menos de mim, que nunca tive mãe, e que portanto, tive de me sonhar sózinha. Com isso, ainda não tinha tido tempo para me parir a mim mesma à luz do dia. Aqui estou eu agora, tentando re-construir o puzzle de mim, desfeito em pedaços de argila que por vezes se desfazem em quase pó. Chove entretanto, o que ajuda muito. Não fosse esta chuvinha miúda e o pó não seria nunca massa firme capaz de ser moldada, esculpida, formada assumindo contornos de pequenas flores de jasmim branco como aquelas que pedi que te chovessem, vindas do céu, no dia do teu aniversário...

Quarta-feira, Dezembro 26, 2007

Só pra dizer...

Se eu fosse poeta
hoje
escreveria sobre o teu entusiasmo
e o encanto vivo que ele transporta
Ou talvez sobre o teu regresso
ou ainda
sobre um mundo pintado em tons coloridos
por inventar e que eu procuro a cada instante descobrir
só para ti.
Se eu fosse poeta
hoje
dir-te-ia que estive numa noite de luar
num paraíso escondido a pensar em ti
só em ti.
Que acordei com vontade de te abraçar
e de te dizer mais uma vez

que


Se eu fosse poeta
hoje
soletrava o abecedário grego para toda a gente ouvir
ou então ensaiava aquele excerto da peça mal decorada
mas com imensa piada, sabes?

Se eu fosse poeta

Se eu fosse poeta
comprava um carrocel só para nós
e enfeitava-me com flores no cabelo
e punha-te uma gravata às pintarolas ao pescoço
e lá íamos nós
endiabrados
andando à roda à roda à roda
até ficarmos de faces rosadas e meios tontos
de tanta brincadeira

ou então
pedia-te para seres meu companheiro num concurso
de balões feitos de pastilha elástica


Ora, se eu fosse poeta...

Segunda-feira, Dezembro 10, 2007

A Árvore de Natal e o Puf Amarelo.

Boa noite, mano.
Adivinha de onde poderei estar a escrever-te!?
Estou sentada no puf amarelo de frente para o arbusto
enorme, alto, fingido
que compraste aqui há anos para enfeitar nesta época.
Hoje fiz a nossa Árvore de Natal. Pedi à mãe que
me trouxesse a que era tua e plantei-a no canto da minha sala
junto à janela da lareira para a poderes ver dai. Vês?

Enchi-a de bolas vermelhas e doiradas e de
laçarotes e presentes pequeninos embrulhados em papel brilhante.
Sim, também lá coloquei a botinha de feltro que alguém te deu
quando eras um miúdo
e as luzes que comprámos juntos no El Corte Inglés, lembras-te?

Hoje senti a tua falta,
não sabia quantas bolas deveria pendurar.
Sabes bem como sou exagerada, como por vezes me é difícil
calcular a medida certa das coisas.
Qual é a medida certa das coisas, mano?

........ ........

Olha. Outra coisa.
O pai anda muito em baixo. Diz que já podes voltar
porque ele tem saudades dos calduços carinhosos que lhe davas
e que tanto o animavam.
E a mãe?
A mãe volta não volta chora e depois
dou-lhe um abracinho e choramos juntas, baixinho.
Andámos a limpar a minha casa no fim de semana.
Não podemos parar mano, senão temos a sensação que o mundo
já não é mundo.
Mas, não te preocupes com ela, que eu mimo-a.

Eu?

Eu estou aqui sentada no puf amarelo a escrever no meu moleskine
e a tentar não olhar para o teu retrato
para não sentir mais o vibrar insistente do teu sorriso maroto
e a esforçar-me por acreditar que daqui a uns meses
já não vou ter mil coisas para te contar.
POr enquanto, o que me dava mesmo jeito
era poder voltar a conversar contigo nem que fosse por mais
uma tarde inteira. Sabes como sou mexida não é?
E como gosto de viver tudo intensamente. Pois!
No último mês aconteceram-me muitas coisas importantes
e novas para mim. Queria contar-tas agora!
Mas, tu morres-te-me há mês ...

Segunda-feira, Dezembro 03, 2007

Passeio na Pena.

"21 de outubro.

Cheira a pinho verde.

Hoje aterrei no paraíso, na terra dos sonhos, dos romances perdidos no tempo, dos contos de fadas e dos príncipes encantados. O aroma amadeirado que paira no ar e a luz que entreabre a folhagem densa e deixa antever o passado, descobre-te em mim e obriga-me a parar o carro e a procurar dizer alguma coisa nova, alguma coisa que ainda não te disse.
Para já, estou sem palavras, embargada num sufoco de Belo que me entope. Preciso realmente de escrever para não rebentar de espanto ou... talvez de Amor.
É o que vejo daqui que (quase) me desespera, que me faz sentir o tamanho do Maravilhoso. É o Maravilhoso o que vejo daqui. Em estado puro. Absoluto.
Bem sei que dizes que exagero! Mas, lembras-te de quando me contaste das noites passadas ao luar na planície alentejana algures da tua vida? De que me disseste que nessas horas sentiste o tamanho do Universo? Pois. Creio ter chegado agora a mais uma zona de sintonia contigo com o que vejo daqui, Carlos. Que pequena sou quando me comparo com a imensidão do que vejo daqui. Perco de vista os limites de tudo, descontrolo-me, quase me desorganizo mentalmente, me desintegro e, o mais engraçado é que me dou conta de que resisto para não regressar. Não quero regressar, Carlos. Não quero voltar para o lugar de onde não avistava nada disto.

Penso que tudo é possível neste instante. Até mesmo, voar!

Sinto a minha alma a ganhar vida e respiro o que vejo à minha volta com os sentidos da alma que tu me trouxeste. A tua. Foste tu quem me trouxe aqui, Carlos. Tu sabias que eu viria.
Não percebo lá muito bem porque te obedeço, porque me deixo levar simplesmente pelo que me dizes, mas percebo que cada linha que escrevo parte de alguma que tu me ditaste. Em troca, gostaria de poder partilhar contigo o cheiro que acabo de recuperar da minha infância a mobílias antigas e a chão encerado de fresco. Este lugar, Carlos. Este lugar de onde te escrevo, é mágico. Inacreditavelmente belo como tu.
Está ali uma janela para sítio nenhum que me levou, ao espreitá-la, ao teu abraço e ao sabor da tua boca. Eu sei que me estou a repetir, mas para mim nunca é demais dizer que te adoro, e que adoro os teus beijos, o gosto da tua língua, o milagre que sinto acontecer-me corpo abaixo quando enches de saliva tua, a minha boca, ao mesmo tempo que vais tocar a lua em espasmos de prazer enquanto fazemos amor.
Experimentei-te agora de novo, sentada num banco verde, de madeira, pintado...

Preparo-me para seguir viagem palácio adentro neste passeio contemplativo..."

Domingo, Novembro 25, 2007

Francisco.

talvez acredite que
sobreviverei à lei da gravidade
ou à lembrança viva da tua voz
alegre
que, do nada, de repente
ecoa em mim e me devolve a gratidão
por te poder guardar como uma referência

diálogo sem promessas
sem condescendências ocas
trocas reais
feitas de afectos puros
autênticos laços pontes vitrais igrejas
nobres espaços
de partilha intensa
aquecem-me a alma

o meu sangue corre ainda
o meu coração pula em batidas compassadas
mais lentas do que o costume
mas apenas porque é de noite
apenas porque está frio e a lareira quase em cinzas
não permite que extravaze

preciso de reflectir para não me esquecer
que existo porque te amei
porque te conheci
não quero largar a pena com que escrevo
mantenho-a agarrada à folha
à linha
ao ponto mais ínfimo da letra com que
procuro re-desenhar eternamente os contornos do teu rosto
no meu quadro de ardósia fixa interior

a letra com que procuro antecipar a certeza de que
sobreviverei à lei da gravidade

que procurarei a cada instante tornar-me
em mais um pedaço de mim
ser-me mais livre e
cumprir-me na felicidade inadiável

agora inadiável


(para o meu irmão)

Terça-feira, Novembro 13, 2007

Adeus mano.

baralhados
os meus dedos perguntam
como escrever o absolutamente novo
estranhos
beco sem saída que nenhuma palavra revela
monte de zinco perdido no tempo
batalha floresta aguerrida
espasmo espanto pasmo é o que sinto.

este é o lugar onde posso aprender a dizer
nunca mais
porque nunca mais te vou poder abraçar
mano
nunca mais vou poder sorrir para ti
ouvir-te a gargalhar cantar
dançar contigo noite fora em conversas serenas
mano

aprendi contigo a força da solidão
a coragem de fazer escolhas dificeis e a respeitar a diferença
aprendi contigo a possibilidade de ponderar
de ver o lado positivo das coisas mesmo quando elas parecem só ter uma cor
aprendi a amar incondicionalmente alguém
e a olhar em frente sem recuar

mano

tens o meu amor eterno
mano

nunca mais vou poder chamar-te
não vale a pena
tu não virás mais ao meu encontro
nunca mais

obrigada mano por teres tornado a minha vida mais feliz
obrigada mano por me teres amado assim

Adeus mano! Até sempre!

Quinta-feira, Novembro 08, 2007

Criação.

Não sei se contemplando infinitamente
chegarei a saber algum dia o que verdadeiramente sinto por estar aqui.
Não sei o que me prende
o que me move
o que me fascina...
Em vão pergunto-me
se o mar que encomendei para ti demorará muito
se as linhas traçadas a seda com que te escrevo
chegarão ao seu destino.

Meço as palavras em centímetros quadrados
na esperança de te ter de volta
um segundo
um século
um silêncio.
Quero preparar-me para a nossa festa
para a nossa celebração de Páscoa.
Dedicar-me-ei a fazer meia como Penélope
até ao teu regresso,
desfazendo de noite o que de dia construo adiando
a despedida.

Em vão adormeço
estremeço
Mas não esqueço que fui tua e que
Te agradeço
Pelo facto consomado do Amor que me liga a ti....

Segunda-feira, Outubro 29, 2007

Ontem.

Quis abraçar-te dizendo-te que era importante para mim
sentir
o teu corpo
simplesmente
junto ao meu.
Pus o meu desespero á frente
dos teus olhos
para não te ofender.
Para não expor o teu.
Ajoelhei-me aos teus pés
pedindo-te
suplicando
para que viesses ao meu encontro
para não ferir o teu ego
despedaçado...

Sei que não estás bem.
Que és tu quem sofre
e muito
quem se esforça brutalmente para não
desistir de tudo
não sufocar
para não se voltar a perder.
Sabes que já me perdi de vista há tempos atrás
conheço muito bem esse lugar
esse abismo escuro onde nos parece que
para além da dor
não existe mais nada a não ser
a solidão irremediável.

O desamor. O desacreditar.

O desamparo habita-nos a todos
diz-se por ai como quem come pevides
e bebe cervejas frescas ao fim da tarde.
Quando se experimenta
a graça que tem é nenhuma.
Não dá vontade de rir
por vezes nem de chorar.

Rouba-nos a vontade
Isso sim!

Torna-nos preguiçosos
Isola-nos amesquinha-nos atormenta-nos
Inquieta-nos.
Deixa-nos sôfregos de nada.
É o nada que consumimos
para continuarmos a sentir a ilusão do poder
que perdemos entretanto.

Rir amar escrever acreditar.

Ao outro
No outro
Com o outro

Para ti.
Sentido pleno.

Terça-feira, Outubro 23, 2007

Absolutos.

Grandes líquidos arrojados
disponíveis
os homens!
Absolutos. Sombrios terrestres abutres
sadios.
Empreiteiros da arca de Noé
semelhantes a aves raras bravias.

Secretos distintos
absolutos
os homens!
Brilhantes maravilhosos a dois dedos de distância.
Incríveis.
Sedutores de graciosas puras.

Absolutos!

Terça-feira, Outubro 16, 2007

Carlos.

Espero-te sentada à minha porta
de olhos semi-cerrados inebriados pela
luz que, antecipo,
me trarão os teus...
Conto e reconto as contas perdidas
do meu rosário de criança e busco
recuperar de mim o nome da oração de que outrora
me socorri em momento de aflição.
Sinto-me segura agora
certa de que virás,
e ao primeiro passo que ouço entretanto
bater na calçada
levanto-me de um só gesto
e murmuro o teu nome...

Vens de livre vontade sentar-te também
à minha beira,
beber comigo da humidade da noite
e da luz dispersa das estrelas.
Alimentas-me o espírito, dizes-me a sorrir!
Acordas-me o corpo digo-te de volta...

Embala-me em ti, meu amor
Embala-me!
Canta-me canções ao ouvido, sussurra-me o teu desejo.
Ensina-me a ser macia, mais doce que o mel
terna quente bela
não fria.

Ensina-me a amar devagarinho...

Quinta-feira, Outubro 11, 2007

Abriga-me.

Quem me dera estar contigo
numa caixinha de pano
numa masmorra esquecida
num pedaço de papel.
Apenas tu e eu, lado a lado
escondidos
estreitando laços perdidos amados queridos.



Deixa-me enroscar-me nos teus braços
pega-me ao de leve com as tuas mãos suaves
toca-me.
Abriga-me
desata-me os nós cegos que trago.
Encosta a tua cabeça à minha
deixa-te levar pelos meus brados.


Perde-te de ti, amante meu
faz-me vibrar de novo ao teu lado
apaga-me o ar que aqui arde
beija-me desesperado.
Desventra-me o corpo com mil prazeres
estende-me no chão do teu olhar
treme grita berra ri
Faz-me levitar.


Não páro de te ouvir em minh’alma
Imagino-te a sorrir

Não digas nada!

Segunda-feira, Outubro 08, 2007

Desconhecido.

Cavalgas sob anonimato nas paredes dos outros
tentando despir a inocência que lhes resta.
Falas de sonho, de ternura, de presença
na esperança de os confundir,
de os fazer acreditar que és de cada um deles.
De os fazer acreditar que os amas.


Linhas meio caducas a cheirar a bafio vão-te dando a sensação que alcanças o que pretendes
Que jamais serás descoberto naquilo que escondes
No teu mistério.
Sim, pode ser o mistério que alimenta o meu sono.
Se durmo bem? Com certeza.
Eu sempre gostei de enigmas, de quebra cabeças.
Coisas que tais.


São deliciosas as fantasias que faço
de cada vez que me deparo com traços de alguém
que não recordo
sabendo que conheço de algures.
Escabrosas, algumas; pérfidas outras. Perversas.
Sempre coloridas perfeitas encadeadas
atrevidas como os beijos
que se querem seguidos
uns atrás dos outros
ou as lanternas que se usam
para que não nos percamos de noite em ruas escondidas

como as espreguiçadeiras em que nos deitamos fingindo que dormimos
suaves,
azuis escuras com almofadas brancas bem lavadas e fofas
a saber a fruta fresca acabada de colher num bosque qualquer
ali ao fundo daquela avenida.

Quarta-feira, Outubro 03, 2007

Convite: Re-começo!

Ora viva caros amigos da blogosfera! Após um período de ausência de cerca de um ano, em que estive a laborar por dentro um processo de luto de mim mesma, venho por este meio convidar-vos a voltar a entrar em minha casa, para tomar chá, conversar, partilhar ideias, opiniões, rir...

Prometo ser assídua na produção de textos originais, desta vez, fazendo uma tentativa de experimentar mais a sério o texto de humor e o erótico. A suposta "peosia", talvez salpique uma ou outra vez o painel, mas quem me conhece sabe, que ela só acontece em mim, ou por amor ou por desespero profundo. A ver vamos o que nos e vos aguarda.

Sejam bem vindos ao Cem Truques, Nu Azul.


"Vamos a Votos!"

A partir das 3 da madrugada já ninguém consegue dormir direito, pois amanhã é dia de votos. Sabem como é. As noites que antecedem os dias especiais das nossas vidas costumam ser um autêntico desastre para muitos de nós, facto que se agrava consideravelmente se atendermos a que, amanhã, a Senhora Dona Ercilía Vale-Tudo-Quanto-Pesa vai cumprir com o seu dever de pôr o papelinho na urna de ferro preta. Ela adora ir botar a cruz nos impressos de papel grosso de que são feitos os boletins. Minha nossa senhora!, o que ela treme só de pensar que amanhã vai voltar a pegar na esferográfica da Bic, daquelas de escrita fina, e com muito jeitinho tentar desenhar a cruz (benza-a deus!) no quadradinho em branco...
Sentir o arranhar da Bic no papel dá-lhe uma espécie de calafrios pela espinha acima, que ela na verdade nem sequer sabe muito bem explicar. O certo é, que é das experiências, que na sua idade e com o que já viveu, não consegue assemelhar a nada que, da mesma maneira, lhe retire o soninho precioso.
Por falar em soninho, então não querem lá ver que o rapazote pra’i com um metro e um escadote de altura, não consegue aguentar acordado para além das 4 da madrugada. É verdade, é como vos digo. Vi-o eu com estes dois que a terra há-de comer, se deus nosso senhor quiser (e se não quiser, come na mesma que isto não é o da Joana, era o que faltava!), adormecer no sofá da sala, mesmo com a televisão em altos berros a contar histórias da carochinha. Lindas histórias por sinal, ah sim senhora. Fui até eu quem ajudou a contar algumas, por isso sei que valiam a pena. Mas, coitado, o tipo tava cansado e além do mais, tem a mania que não gosta de arroz de feijão frade e de maneira que, mal se viu aconchegado, toca a ressonar que se faz tarde!

Bem, mas voltemos á Dona Ercília, coitadinha, que essa sim é digna dos nossos cuidados. Pois ela roda e rebola, que o termo é mesmo esse (é o maldito do organismo que não metaboliza as proteínas, e faz com que a dita senhora, esteja sempre a insuflar), e vê-se grega para xonar. O que lhe vale é que é só hoje por amanhã ser dia de votos, e por a malvada da senhora ter um fetiche qualquer com as canetas da Bic, que é obra. É aquele arranhar, aquele toque suave no plástico duro e levemente estriado, é o escorrer da tinta azul (que agora, a bem dizer o azul já nem se usa. Agora é o preto pra tudo, é nas finanças, no notário, nos correios e nas avenidas novas...), e sobretudo, a dificuldade de decidir onde por a dita da cruz. Essa sim é a cruz da nossa vida, e o maior desafio que se coloca à Dona Ercília.
É só aqui que ela esbarra, porque de resto, a vida vai-lhe bem. Tem no seu Cardoso, o homem que dorme com ela, um grande amigo, e mais do que isso, um enorme amparo para não cair da cama abaixo. Se não fosse ele estar ali encostadinho, áquele cantinho que resta de cama (já de si grande, de dois metros para mais) nestas noites de insónia, vinha a vizinha do terceiro andar saber o que se passou, de certezinha absoluta, tal era o estrondo que a queda de sua Senhoria, a Dama da Marmiterie da Quinta dos Rouxinóis daria no seu soalho de madeira ainda novo, portanto, não abafador de todos os ruídos.

- Valha-te deus, mulher do diabo! Deixa-te estar quietinha que me dás cabo das costas!
- Deixa-te de lamúrias que eu nem te toquei.
- Ah pois não! Tou aqui que nem posso, a ver se me aguento sem cair da cama abaixo, com uma mama tua enfiada na costela número 3 do lado esquerdo, logo logo a seguir à clavícula que daqui a nada, tá fora do sítio, desnocada. Tou pra ver depois, quem é que me leva ao hospital, tou tou...
- Ai credo, homem! Não podes ser um cadinho menos bruto comigo, não? Se fosse alguma brasileira, até de dava jeito a mama, mas como sou eu, a tua Escília, a coisa já é aos coices não é? Eu pra qui, coitada, sem conseguir descansar, e amanhã com decisões tão importantes para tomar... Valha-me deus a mim, pobre mulher ...

- Olha sabes o que te digo? Vou mas é dormir pá sala, porque amanhã quero ir à pesca e não me posso levantar tarde, quando não, o peixe dá de frosques e depois tenho que o ir comprar à praça ao preço do oiro que tu bem sabes.
-Oh Cardoso, não vás embora! Oh homem, tu não me percebes homem. Ajuda-me antes a por a mama para cá e diz-me onde é que achas que eu devo botar a cruz anda lá.
- Ah, eu logo vi que tu querias era festa. Eu até já tava a estranhar! Tu tens andado tão calminha, a dormir tão bem, até tens ressonado que eu bem ouço (nessas noites, quem na dorme nadinha sou eu!). Queres atão que eu te mande a mama pra’i? Pera ai, que eu já lá vou. Agora tenho de ir ali à casa de banho, que tenho o material a pedir pa despejar. Já sabes como isto é. O médico já me disse para não esperar. Para quando tiver vontade ir logo, senão ainda é pior.
- Vá lá, atão! Vai lá, que hei-de eu fazer! Deixa tar que eu arrecado a mama...! (Oh senhores, mas onde é que eu hei-de botar o raio da cruz?!!)

(continua)



Até breve. Azul.

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Domingo, Novembro 19, 2006

ontem olhei para deus...

ontem olhei para deus de frente
nos olhos dele...
no retorno beijado próximo do meu rosto
senti-lhe a humanidade vulgar que a si também transporta.
o cansaço do tempo eterno
fá-lo atarracado. está velho.
esbranquiçado.
o cigarro cheiroso anima-o ainda adocica-lhe
o olfacto primitivo.
curiosamente não somos da mesma altura. eu que o tinha imaginado grande
enorme cativei-o para que se me mostrasse naquilo que
secretamente
não revela nem aos seus.

a palavra criada ouvida falada
a palavra re-inventada
a alma da palavra comunicante.
obrigada deus pelo seu cuidado

(para o prof. amaral dias)

Segunda-feira, Novembro 13, 2006

1969.

"Hoje é o dia do meu aniversário. Ficam completos 36 anos da minha vida. Da minha existência...". No ano passado era este o início do texto escrito neste recanto ora sombrio, ora descarnado, ora imaginativo, terno, bem humorado, sedutor, amargurado, colorido, divertido, partilhado...

Hoje, palavras procuram-me em busca da invenção de um novo cumprimento para me dirigir e, sem o prever, dou comigo a reler-me e a não perceber o que não vi de mim. É provável que seja da luz. Talvez. Alguma coisa mudou entretanto, e contudo, se me perguntarem o que fui, não sei responder. Creio que deixei de vez a réstia de inocência que me esculpia as faces de um rosado natural. Sinto-me confiante não sei bem em quê. Sinto-me a valer um Tejo e tudo. Os amigos manifestam-me uma dedicação inesperada. Sorriem-me de todos os lados e eu agradeço, meio estupefacta, confesso. Muita gente me mostra confiança, mostra ouvir o que tenho a dizer, alguns insistem em vir ler-me. Obrigada.

Mantenho o lápis preto bem carregado a delinear-me o olhar. Torna-o atrevido e forte, creio.
Quanto a extravagâncias, este ano resolvi aderir às botas de cowgirl, sendo que, as que comprei são em tons de ouro porque afinal, eu continuo a mesma - e a gostar de dar nas vistas, que é que querem?
Não estou mais inspirada que outrora, nem menos parece-me, embora me sinta a gastar vocábulos à tôa.
Creio que, na verdade, quero dizer apenas que me sinto muito feliz e achei por bem partilhar-me convosco neste bem estar. Até p'ro ano!

Domingo, Novembro 05, 2006

Líquido Devir.

boiavam pedaços de carne
esfiapados
dançantes
amordaçados
dentro de um frasco de formol.

sem alma
gritaram-lhe aos ouvidos para que deles soubesse
que já tinham sido seus.
olhou-os
não sei se incrédula se conformada:
resistente, aliviada!

antes
formaram todos juntos um futuro
a acontecer dentro de si:
um nó cego
uma encruzilhada
um rolo de carne viva em movimento.

na bifurcação ficou parada.
não andou daí p'ra cá.
não se mexeu.
não disse nada.

sobreviveu.

..................................................
..................................................

lágrimas perdidas
procura-as baratas p'ra ver se se renova
se resgata aquilo que perdeu.
desfez-se de um pesadelo
arriscou-se
decidiu!
sofre a dor de ser mulher e
aguarda em silêncio
sempre em silêncio
a possibilidade última de se
nomear


(eu voto Sim nodireito à decisão livre. Não, à hipocrisia gratuita, ao comércio de carne fresca livre de impostos. VOTE no Referendo!)

Quinta-feira, Outubro 19, 2006

Maio.

"Porque me tornei, definitiva e deliberadamente livre, o que procuro é a verdade..."

Sábado, Outubro 07, 2006

A república portuguesa ou a boca no trombone.

Bem sei que este texto já vem atrasado, uma vez que o dia cinco já lá vai há dois dias, mas mesmo assim, talvez valha a pena escrevê-lo em abono da República POrtugesa e dos valores democráticos que nela bebem e jorram com tal abundância que até aos mortos dá tesão.
Cá vai.
No dia cinco último, estava eu a acabar de me preparar para almoçar quando fui informada das últimas do nosso mundo institucional, sério e disfuncional que por cá temos. A história é simples: alguém que eu conheço, de seu nome Mulher, foi recentemente concorrer a um concurso público, ainda que interno, para um lugar de chefia. A vaga era apenas uma, e apenas duas pessoas do conjunto do serviço em questão preenchiam as condições/requisitos exigidos para concorrer à dita vaga. Já se está mesmo a ver que, além desta Mulher a que me refiro, havia um Homem candidato ao mesmo concurso. É também um outro homem que, neste momento, tem nas mãos o destino do serviço em questão. É também deste homem que depende a escolha do novo candidato ao lugar, ainda que do concurso fizessem parte uma catrefada de provas que só visto - práticas, ténicas, físicas e etc -para as quais esta Mulher (e certamente o seu colega) se preparou muito bem.
Fazia igualmente parte do regulamento que a decisão final, apesar de depender também da opinião do dito mustrengo que lá manda, dependeria essencialmente dos resultados obtidos pelos candidatos. É a velha máxima de que "vença o melhor". Pois muito bem. Vamos a isso.

Ela lá foi. Passadas as provas dadas pelo corpinho em corrida, ora pula, ora salta, ora estica e encolhe, ora nada, ora ... que aquilo ali é preciso estar sempre em forma, vieram as teóricas/técnicas afectas à actividade específica em questão. Aqui pr'a nós, ela receava sobretudo as físicas por uma questão de fragilidade natural face ao seu concorrente. É natural, mas ela ultrapassou-as. Ficaram a par. Em igualdade de circunstâncias.

Siga pr'a bingo. A hora estava marcada, a farda engomada e ela lá foi dizer do que sabia. Á entrada da porta, o mustrengo supervisor dá-lhe a passagem, mas antes avisa-a: "oiça lá, você não se esqueça que aqui, para uma mulher passar à frente de um homem e chegar a chefe precisa de provar que é mil vezes melhor do que ele!" Ela não respondeu. Está-lhe vedada a palavra. Entrou. Fez as provas.
Saíram os resultados.

Foi destes resultados que soube na quinta feira. Ela não ficou com o lugar. Teve os melhores resultados na maioria das provas realizadas, o que significa que ficou em primeiro lugar no concurso, mas como é o mustrengo que manda, foi o colega o escolhido.

Tenho dito! Assim vai o mundo e o sistema que temos.

Nota dois: soube no mesmo dia da exoneração de um outro mustrengo de uma outra força, que à pala da coragem do superior máximo, foi finalmente obrigado a retirar-se e a ir cavar batatas pá terrinha dele.

Até breve. Desculpem-me o desabafo, sim?

Quinta-feira, Setembro 21, 2006

A hora da sesta.

Que lindas que vêm as duas
lado a lado, conversando.
Caminham com lentidão empurrando as rodinhas jingonas dos carrinhos que trazem
lá dentro
os rebentos adormecidos.
São gordinhas as maganas
barriguinhas avantajadas que ainda não voltaram ao que nunca foram
e peitos largos espreitando um furo para se espreguiçarem que quem os aperta abusa nestes dias de calor.

Descansam sentadas agora
beberricam a água fresca que trouxeram no saco azul turqueza que pediram emprestado
às irmãs mais velhas
mais sabidas da vida.

Segue logo o passeio que as crianças não se querem acordadas ainda.
Berram não tarda.

Amanhã de novo na praça a seguir ao almoço. É a hora da sesta.

Segunda-feira, Setembro 04, 2006

Destino.

Fujo ao destino ou tento fugir-lhe
acreditando que posso desafiar Deus e, com uma palavra minha
escolher.
Decido terminar contigo como quem interrompe
uma vida futura com futuro incerto porém garantido
com ar esperto e espevitado.
Choro
não sei se de prazer ou de dor como outrora não sabia que
falando
podia mandar construir o mundo à minha medida.
Como outrora não sabia que como quem faz um bordado
é desfiando a linha que se costura.
Não sabia como era caminhar na praia escura
chapinhando à beira mar
sozinha.

Outrora o tempo não passava de uma metáfora estrelada que, de par em par
se abria cruzando taças de vidro gelado preparadas para
receber os hóspedes.
Estou curiosa agora.
De novo, estou curiosa!
Parto em busca do que não há
do que nunca vi
do que sinto que me espera num outro lugar:
no mundo.

Envio flores ao vizinho do lado e curvo-me
perante a ideia da liberdade.

(Cá estou eu de regresso, para mais uma temporada de blogosfera. Espero que todos tenham tido umas excelentes férias. Bom re-começo para todos. Sejam bem vindos. Azul.)