Cem Truques, Nu Azul

Um Lugar com Vista para Além de Mim ...

A minha fotografia
Nome: Azul
Localização: Lisboa, Portugal

Simplicidade colorida de azul com um guache de água de colónia, seria certamente algo apetecível pelo cheiro, nem que fosse... Um alfinete-de-ama embebido em leite, uma sobremesa nova... E a imaginação, um rosto desfigurado de real...

Segunda-feira, Maio 25, 2009

conjunto sem título.

Sentes-te nua face à enormidade da vida.
A injustiça não te perdoa,
exige-te antes, que te vergas, que te dobres...
Fá-lo-ás!
Navega segura por entre as fronteiras que desconheces,
descobre a cada passo alguém mais a quem abraçar
e verás
que a lua não deixou de ser tua.


.................................................................................

~Foste um herói sem história
mil páginas em branco de um livro por escrever.
Mar azul sereno em falso
no deambular das ondas de uma quimera.
Foste traço de um esboço por projectar
artefacto de um mundo às avessas.
Papel de seda amarrotado riscado por
tremuras cenas casebres tristes por
desvendar.
Segredo mal guardado, silêncio desconjurado
herege descrente esfarrapado.
Foste céu nocturno sem luar
trevas azedas de angústias mal ditas
tremendas.
Fado és.


Agora.

Domingo, Abril 05, 2009

Carta de uma Mulher para um Homem Anónimo.

"Apresentas-te-me com um porte de Príncipe, por vezes assumindo mesmo a altivez nobre de um Rei. Talvez o tenhas sido já numa outra vida tua, anterior a esta a que, nem eu nem tu temos acesso pelo simples processo usual da lembrança. Talvez seja daí que te conheço. Quem sabe? Talvez.
Agora, nesta vida que percorremos, constato sim que de Principesco ou de Nobre te resta apenas o porte, dado que a ambiguidade que te povoa e que, portanto, te atraiçoa, parece ser a tua verdadeira essência. Sim, a ambiguidade é e sempre foi tua. Por dentro ou por detrás das vestes ricas que fazes por envergar, escondes, como sabes, alguém que se sente um plebeu da mais modesta condição. E digo modesta porque te estimo e respeito: eu não sei quem terei sido em tempos esquecidos e por isso reservo-me, pela desconjuntura eventual do meu passado, a não te desconsiderar nem em milímetros. Sim, porque todos temos um passado.
Despido revelas-te como um pêndulo oscilante entre o pobre de espírito (o miserável), e o condenado à fúria dos pecadores (o de duvidoso carácter). Não te livras com facilidade de te sentires como menor pelas jóias que, entendes, deverias ter. Nada do que podes aprender te merece o respeito devido, pois nesta fase do caminho, ou serias ouro e pedras e tronos, ou nada. Para nada consideras que vales. Nada! Do outro lado, difícil continua a ser-te a resistência às tentações despudoradas que, entendes, não deverias querer viver, pois que te tornam menos digno da justiça que o Rei de outrora que albergas dentro de ti, te continua a exigir que sejas. Não mereces o amor de ninguém, pois que dele não te sentes digno!

Vergonha e Culpa são as tuas mais fortes energias. Nem o orgulho que, mesmo arrogante ou vaidoso que fosse, te poderia dar algum consolo, consegues alimentar devidamente. Escolhes antes esticar a corda dos outros, para ver se te suportas melhor por interpostas capacidades alheias de humanidade.
Para a tua pobreza de espírito, devolvo-te a minha compaixão; para o teu carácter duvidoso, o meu silêncio empático. É como te digo: eu não sei quem fui outrora. Hoje, sou uma mulher livre que, enquanto tal, se sente e sabe e se assume como inteiramente responsável pelas suas opções!"

Segunda-feira, Março 23, 2009

Irreversível.

Mesmo que quisesse não conseguiria
deixar de te amar
de repente.
Mais fácil foi enamorar-me de ti
inesperadamente
sem ter tempo de meditar ou questionar-me sobre o assunto.
Mais fácil seria agarrar-me a outro alguém qualquer
na tentativa de me enganar a mim mesma. Mais fácil seria
não viver isto que sinto.
Mas mentiria.

Quarta-feira, Março 18, 2009

Fio de seda.

Sinto-me como tecedeira de verbos
pegando em pérolas de gentes que percorro
atravessando como fio de seda
um colar de liberdades...

Quarta-feira, Março 11, 2009

Marlon Brando.

Marlon Brando vive na minha rua.
Traja jeans e t’shirt justa
Insinua-se
Despe-me o corpo com o olhar
não descansa.
corre na estrada do tempo
e avança.

Heis a frase que lança:
Quero-te!

Quarta-feira, Março 04, 2009

O homem do fígado podre.

" (...)Sabes que hoje recebi uma notícia triste. Morreu-me o homem do fígado podre.
O fígado não se compadece com conversas, trata-as como se fossem contas de um rosário partido, despedaça-as em menos de nada, e mata, pura e simplesmente. Lembrei-me de ti, de imediato, assim que recebi a notícia. Ficou completa a parte que faltava para aprender aquilo que me quiseste ensinar logo no primeiro dia em que nos vimos. De facto, há coisas que me ultrapassam, que eu não posso controlar, alterar, resolver. Disse-te que concordava contigo, ainda que da minha experiência, tivesse uma maioria de histórias de sucesso para contar. Disse-te ainda que acreditava sempre, e que esse era talvez o meu maior segredo. Também acreditei nele e embora a partir de hoje, não possa provar nunca mais que ele era viável, eu sei que era. Morreu de cirrose, não por falta do meu amor ou da minha disponibilidade humana para o ter comigo o tempo que fosse preciso para se recuperar a si mesmo e à sua verdade interior.

Lembrei-me também da última conversa que tivemos, eu e ele. Falámos precisamente de mentira e de verdade, e eu disse-lhe que confiava nele, mas não lhe podia subscrever a mentira que a si, de si, continuava a querer alimentar. Ele queria realmente morrer. Falava a sério quando pensou em atirar-se para debaixo do comboio da Póvoa. Ele achava que não, não queria crer. Era-lhe doloroso perceber isso. Preferia achar, e que eu lhe dissesse, que tinha sido apenas um pensamento menos bom que lhe ocorreu em tempos, por andar com a alma bêbada das limitações de que, entretanto, padecia. Mentira. Duarte, é mentira. Não se engane Duarte, porque é pior para si. Acha? Tenho a certeza, Duarte. Foi a operação à coluna que me deu cabo da cabeça. Deixei de poder tocar, e depois, foi a morte da minha mãe. Eu sempre bebi muito, era costume, mas a partir daí comecei a beber de forma diferente. Bebia mais, tinha que beber senão não conseguia dormir. Bebia para se anestesiar de si, para se ausentar, para se esquecer. Sim, bebia para não ver o que me era penoso. Para não saber da minha infelicidade. Pois. Para não saber da sua infelicidade. Mas, também para não se viver mais Duarte. Você não se sente capaz de se viver mais, daqui em diante. Não tolera a frustração da vida, dos embates que ela lhe trouxe ultimamente. Eu sei que já não venho a tempo. Tempo Duarte, tempo. Pois é, é sempre o tempo o que nos falta. É sempre o tempo que nos prega estas partidas. Mas, olhe que entretanto é melhor ir ver do fígado. Pois, pois, quero ir ao médico. Agora já estou decidido a ir. A minha irmã até me disse que qualquer dia tinha mas era que ir tratar dos dentes, que realmente precisam, mas eu disse-lhe, não primeiro tenho que tratar da cabeça, depois lá irei aos dentes. Sim, Duarte, tem que tratar da sua cabeça para que ela lhe albergue a dor do que já sabe - a dor da verdade que é a sua e da qual tem andado a fugir descaradamente..."

Sexta-feira, Fevereiro 13, 2009

A força da ignorância!

"Pratice what you know, and it will help to make clear what now you do not know."

(Rembrandt)

A Ignorância é uma categoria descoberta na maturidade. O tanto que não sei, estimula-me a prosseguir!

Quarta-feira, Janeiro 21, 2009

Ainda...

"(...) Não podes aprender-me agora, eu sei. Para que me aprendas, eu espero - não tenho pressa. O que ainda não sei, se bem que começo a sentir que resisto fortemente a aprender, é a amar devagar. Confesso. Eu não sei amar devagarinho como quem toca ao de leve num rosto que descobre de novo, apenas com a polpa mais externa da cabeça dos dedos das mãos. É daqueles toques que ficam para sempre gravados dentro de nós, ainda que seja dos mais simples e suaves e discretos que possam haver. Se quiseres, é um toque inocente. Quando feito por mim, de inocência pérfida. Não consigo amar a direito, com linhas e pespontos seguros e sem tormentos pelo meio. Não sou mulher de amores serenos, invísiveis, caducos. Raramente deixo cair esse lenço ou o deito borda fora, mesmo depois de apodrecido. Por isso, e por uns tantos cigarros que fumei durante anos, tive de parar de o fazer de repente senão morreria cedo de tanto entupimento...!"

Terça-feira, Janeiro 13, 2009

Arrogância de Narciso!

"Foges constantemente como quem pretende travar uma batalha contínua capaz de negar as perdas e ganhos sucessivos que, de quando em vez, te atrapalham a marcha. Queres combater o tempo que contornas na tua vida, e ofender o espaço que sentes mediar algo de teu contigo mesmo, sem saber ao certo de que tens medo, afinal! Sim, é de medo que julgo tratar-se! Do medo que te leva a mentir descaradamente, ou a ter como passatempo preferido o esvaziamento de ti, procurarando com isso retirar ao outro todo o conteúdo significante. A tua meta mais ambicionada parece ser um absoluto despropósito: arrasar com o diálogo em toda a sua linha mestra. O diálogo interior - aquele em que te dirias nas esperanças que albergas de que um dia, alguém por ti idealizado te vem dizer que és especial (talvez mesmo especialíssimo!), que se quer hipotecar por inteiro a ti, que te ama incondicionalmente e que dispensa que lhe dês de volta o que quer que seja. O diálogo exterior – aquele em que te confrontarias com a liberdade allheia, com a diferença, com exigências de seres chamado a satisfazer necessiadades outras que não as tuas. Odeias o diálogo que constrói uma narrativa – aquele que denuncia o laço que te segura, conforta e afaga a existência. Aquele de que dependes: odeia-lo! Odeias-te! Numa parte de ti, odeias-te. Na outra, amas-te como se ideal fosses: deus! De ambivalência em ambivalência, de fuga em regresso e de novo, em fuga, atravessas o caminho sem dares um único passo na direcção certa..."

Sexta-feira, Dezembro 19, 2008

O melhor do Mundo...





Festas Felizes para toda a Blogosfera.

Um grande abraço! Azul.

Segunda-feira, Novembro 17, 2008

Arrelia!

De cada vez que me procuro
interrogo-me sobre onde está o fim do caminho.
Não sou livre ainda, não!
Estou acorrentada ao cordel do vínculo perverso
que ensombra a minha verdadeira identidade: A minha vontade!
Por receio de parecer intolerável,
submeto-me aos predicados da virtude
instituídos por outros que nada de mim querem saber
quando legislam seja o que for.
De tesourada em tesourada,
rasgo o que posso
de mim, se preciso for
para me tornar em mim mesma
desviando do contexto que me povoa
O pavor da solidão!

Sexta-feira, Novembro 07, 2008

Memória.

Mano
agora distante
longe da minha vida,
irrecuperável na partida que percebo
certa.
Sonhei-te há tempos já morto, prestes a entrar na câmara que
te consumiu para sempre. Acordei sobressaltada,
num grito que tinha ainda cá dentro... estremeci de terror
e compreendi que estava a arrumar dentro de mim
aquele dia,
definitivamente.

Noutro tempo
surpreendi-me a recordar tão vivo o teu sorrir
a lembrar as piadas só tuas
tão tuas
que fazias a meu respeito, a respeito de tudo
de todos.

Voltei a escutar-te o
amplo gargalhar
e revisitei os teus dedos finos, o teu corpo
o teu abraço incondicional.
Voltei ao ginásio e caminhei sozinha
pelas passadeiras que corríamos juntos
enquanto conversávamos
enquanto te contava as minhas desventuras
enquanto me aconselhavas do alto da tua juventude sábia.

Lembrei-me das sestas que fizémos juntos
dos filmes que vimos
dos lugares que imaginámos percorrer pelo mundo fora...

Sinto a tua falta, sim.
Tenho saudades do que vivi contigo.
Sim, do que vivi, do que vivemos. Não foi o vazio que deixaste
Mas o segredo.
O segredo do vínculo fraterno
Seguro
Autêntico
Verdadeiro... Único.

Partiste dentro de mim.
Partiste.

Sexta-feira, Outubro 24, 2008

Intenções.

“Quero que valha a pena dizer-te aquilo que nunca te disse.
Bem sei que a incredulidade te habita incessantemente fazendo de ti um mendigo nas horas vagas. Um desabrigado de esperança, até de fé. Mas, mesmo assim, insisto em dizer-te aquilo que nunca te disse. Aquilo que, de denegação em denegação, tens vindo a fingir não escutar que é teu, que te pertence, para evitares perceber que existes e no que te tornaste.
Direi pois, da tua alma, que ela me inspira quase diariamente. Que, se espelho fosse de mim, me transforma a cada instante numa criadora, pelo menos em potencial – o que, diga-se de passagem, é sem dúvida o mais inédito de mim, e de ti em mim!. Não estando certa de me conseguir explicar (e tu sabes o como e o quanto eu gosto de me explicar!), a verdade é que te sinto realizador de filmes reais, ao contrário do que de ti, sempre disseste conseguir ou sequer almejar. Que te sinto um lugar humano confortável e acolhedor para mim, que te sinto um relógio que procura andar num compasso permanente de paz e tranquilidade que me ampara e segura nos meus mais secretos sonhos. Que me permites imaginar-me junto a uma lareira em fogo, embalando os filhos que serão os nossos, enquanto em conjunto preparamos um futuro por realizar, por descobrir ainda.
Sinto-te como alguém que, na sua profunda insatisfação, apenas demonstra a sapiência que tento tantas vezes em vão, procurar no meu silêncio inquietante. Aparentemente desinteressado do mundo dos afectos, procuras desligar-te antes, sim, do supérfluo que nele persentes, e que sabes não servir para mais nada a não ser para alimento de vaidades alheias a ti e aos teus desejos. Enredos desmedidos, com falhas de discurso ou com palavreados estupidificantes esmorecem-te a paciência que talvez ainda não tenhas. Contudo, ao imaginar-me com filhos nossos ao colo, persinto que é neles que acreditas estar a luz iluminadora do teu vazio.
Não tenho dúvidas, pelo menos hoje, de que podes ser o presente mais precioso que o mundo me enviou. Que, apesar da minha teimosia, também eu não escapo ao banal, ao comum, ao evidente princípio da angústia existencial. Se quiseres, ao absurdo, ao cómico, ao extravagante, enfim, princípio da perpetuação...
Estou rendida às evidências. Não tenho por que mais me iludir ou enganar. Quero fazer parte integrante da tua vida, quero manter-te por perto da minha existência singela. Quero que te autorizes a despejar-te para dentro de mim. Quero. Sim...”

Sábado, Outubro 04, 2008

new...

Sublime encontro o nosso
-
Inesperado
-
momento de paixão soberbo
eleva-nos no isolamento das forças vitais
perfume branco de cheiro presente
-
Abençoado
-!
...................................................................

Mágico

Quarta-feira, Setembro 24, 2008

Do Silêncio.

Começo a aceitar e a compreender ser no silêncio que melhor te revelas. É nele, sem dúvida, que melhor te escuto.
Ouço-te agora, quando antes não mo permiti, dizeres do teu amor quando me agradeces por ter aceite uma proposta que fizeste há tempos. Escuto as lâminas de alma que me tens mostrado, enquanto eu, inutilmente, me tenho vindo sorrateiramente a escusar admitir que um acontecer como este fosse possível entre nós dois. Fosse possível, simplesmente. Tenho dito a mim mesma que não posso ser mais clara e transparente no que toca aos meus afectos e, contudo, estou quase certa de que tenho sido eu a falar de menos. Tenho sido eu a entupir a relação de falas e mais falas para não deixar de permanecer num silêncio que me isola, que me esconde, que me assusta. Quem tem vindo afinal de contas a falar abertamente de Amor? Quem tem vindo a revelar ser mais sábio, mais maduro, mais directo no discurso que alimenta? Quem...?
Ouço agora o teu convite para morar junto num lar improvisado, cheio de cor e animação, em construção aberta e livre, e tendo a cair na tentação de continuar a pensar que não me levas a sério.
Escuto o teu querer-me para além do tempo, do lugar e do presente, e quase teimo em não aceitar que me és de confiança. No fim das contas, é disto que se tem tratado. Posso talvez desculpar-me a mim mesma, dizendo que tem sido por precaução adulta que me tenho reservado. Ou dizer ainda, que tenho andado também eu a tentar construir um território de confiança mútua que dê lugar, enfim, ao palavreado decente. Porém, por mais que me desculpe ou queira escarpar-me da responsabilidade pelo que sinto, de uma coisa estou segura: neste silêncio, é a confiança humana que sinto em ti que me aparece esclarecida.

Quarta-feira, Setembro 03, 2008

Do desafio ao Sonho.

Há um ano atrás sentia um desafio dentro de mim a empolgar-me a alma: o de descobrir quem és. Mais do que saber o teu nome próprio, procurava a cada instante de encontro descobrir quem escondias. Procurava de mim, e em mim, desenvolver uma possibilidade discursiva que me alimentasse o sonho longínquo do despontar de um talento qualquer capaz de me devolver a integridade, a confiança, talvez mesmo a dignidade já, entretanto, re-negociada e resgatada, para a poder transformar em algo de novo que valesse a pena. Não sei se acreditava em qualquer das realizações sendo certo que, hoje, volto a escrever em busca de um esclarecimento. Talvez faça somente um balanço. Talvez seja útil procurar reunir os tantos elementos que recolhi entretanto, para te traçar finalmente, fazendo desaparecer de mim o fantasma do desafio. Talvez quisesse até concluir este processo, mas creio perceber agora que não é a conclusão que procuro. Talvez queira antes encontrar o resto do caminho para poder, enfim, continuar.

Dizer de alguém quem é, pode ser no mínimo arriscado, senão mesmo, atrevido. Melhor seria que voltasse a articular os pontos e perceber se consegui, de ti, traçar um desenho cabal, lógico, correcto, ou se simplesmente não fiz outra coisa senão manter-me exactamente como no início, sem nada saber. Se, na verdade, continuo apenas povoada de hipóteses, de possibilidades, de fantasias. Será que fui capaz de te receber em mim? Será que te escutei realmente ao longo deste tempo, ou permaneci centrada numa crença de impossibilidade paralisante, fingindo que me alimento apenas, exclusivamente, da energia desse mesmo desafio sem ligar patavina ao objecto que o objectiva?

Efectivamente deste resposta espontânea a muitas das perguntas que alberguei, sem que invadisse a tua intimidade, caso tas tivesse perguntado. Aos poucos e poucos, foste dizendo de onde vinhas, relembrando a tua infância, partilhando comigo alguns episódios mais graves que viveste. Das perdas irrecuperáveis que tiveste já, dos mal entendidos que provocaram alguns dos momemtos da tua solidão, dos equívocos que não pretendias que se jogassem entre nós. Mostraste-me alguns dos valores fundamentais em que te sustentas como os da Liberdade e da Justiça.
Fomos rindo, cantando juntos, fazendo amor sempre que os corpos se anunciam urgentes.
Temos vindo a tornar-mo-nos cada vez mais cúmplices um do outro nos silêncios que medeiam as palavras com que não nos dizemos. Temos brincado juntos e descoberto uma nova forma de nos mantermos aqui. Não posso dizer que não sei quem és como antes. Contudo, prefiro esquecer-me do que supostamente sei, para continuar a sonhar ... mais alto, mais longe...

Segunda-feira, Agosto 18, 2008

Sublime Generosidade.

Esvoaçam pétalas de rubras rosas
refrescando o ar que me enternece a alma
de cada vez que fazemos amor.
Figura pura e viva a tua,
que me agradece o som do momento crucial.
Divina infância perdida no tempo
amante eterno esperado presente,
quanto do teu suor me faz vibrar, cantando
um sonho
um poema
um encanto paralelo.
Generoso de corpo inteiro
habitas-me o solo por desbravar
romance de luz, casa futura, luar crescente
expandes o mundo, devolves-me
o mar!

Segunda-feira, Julho 14, 2008

De tarde.

Sento-me de frente para o Palácio e deparo-me com uma espécie de sonho que me atravessa a alma, ao mesmo tempo que me ampara.
Respiro um Tempo preciso, o meu, Agora!, e pressinto a serenidade de outra alma que em silêncio me espera. Sou um abrigo, um caminho sem encruzilhadas, um céu limpo numa noite estrelada... Estou tranquila, na certeza da chegada.
Reflicto, entretanto, em como outrora não escrevi a solidão. Quase me esqueci de quantas eram as palavras que sempre me faltavam, sobretudo quando pretendia bordar com elas um tecido qualquer que disfarçasse a mágoa e servisse para me tapar na hora da minha morte. Perdi-me de vista nesse traçado escuro e Hoje não me apetece pegar na agulha e voltar a cansar os olhos a contar as quadrículas por preencher. Não gosto do desenho que escolhi nem tão pouco das rosinhas esculpidas à mão que adornam o dedal de prata que me ofereceram num aniversário em miúda.
O pouco entusiasmo que levava p’ra escolha das meadas de linha, era o derradeiro instante que me escapava. Disso, lembro-me muito bem! Importava apenas que me entretivesse...
Admito que desisti de me preocupar com o preceito que dá valor às coisas. Fazer e desmanchar para voltar a fazer, dá muito mais trabalho do que estar aqui simplesmente sentada de frente para o Palácio.

Posso observar os que passeiam de mãos dadas p’lo Sol, ou ouvir as conversas alheias travadas à toa enquanto se aguarda o esmorecer do calor. Permito que as letras me escorram dedos abaixo sem pensar nas palavras que com elas formo. Mais importante do que o preceito que dá valor à coisa, é o tanto que me divirto exercitando os dedos que são os meus, sem anéis nem artíficios, naturais...

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Gosto de sentir esta lente imaginada, com que vejo o mundo à minha volta, nada nada embaciada, que me deixa ver por dentro. Apetece-me a vida toda num momento. Aguardo poder olhar nos teus olhos e dizer-te enfim, que te Amo!


É a solidão que escrevo agora, pois só nela me pernito aligeirar os desígnios da minha sorte. Tanto me faz que seja tarde ou cedo, que se diga que a prosa precisa de regras. Quero a leveza das gentes mundanas a povoar o meu entardecer; quero palpar a massa vulgar do lote negro e branco dos teus cabelos e navegar na luz do teu abraço. Sinto cá dentro o ritmo do teu andar e a graça do teu sorrir. Vem Amor, vamos dançar!

Sexta-feira, Junho 06, 2008

Coisa nenhuma.

Hoje acordei arrebatada de sonho,
de desejo carnal puro e duro
de adoração pela vida de um só dia.
Faço de conta que espero,
que contemplo apenas a ideia dos corpos ferventes,
que não os anseio nem desespero. Mas é mentira.
Atravesso um portal de pirâmides tremendas
montadas a ferro e fogo
devagar, pedra a pedra
ilustradas nas páginas do meu delírio.
Subo de saias levantadas até ao cume do abismo,
entrego as flores que levo ao amante do meu perfume
estonteando uns e outros, disfarçando que sou mais uma.
Nada disso importa agora. Antes sim, traço o caminho.

Quinta-feira, Maio 29, 2008

pela manhã...

Telhados amplos protegendo paredes
traçam perfis arquitectónicos, esculpindo
imaginários subversivos
submersos em
misturas de chá, vindas do Oriente.
Ervas doces, orvalhadas pela manhã
cobrem de verde as madeiras das casas
dentro das quais se ouvem os pés
descalços
dos amantes serenos...
Os rostos pintados aos pormenor
cobertos de branco, decorados com tintas
negras e rubras,
destacam a luxúria extasiante,
prometem segredos,
disfarçam sentidos,
tapam os buracos do desconhecido.
Dedos miúdos, delgados
sobram nas sedas enroladas à cintura
e descobrem o Sol que as ilumina.

Telhados de casas profundas
desvelam a riqueza das ternuras
dos laços energéticos
que acontecem pela manhã.

Segunda-feira, Maio 19, 2008

Partilha.

Há reflexões dentro de nós que, volta não volta, re-surgem como necessárias.
Em tempos, enquanto me deitava regularmente num divã de costas voltadas para alguém que, pacientemente me ouvia, perguntava-me entre tantas outras coisas, o que seria eu capaz de fazer por amor. É daquelas perguntas banais que qualquer ser que se dedique a pensar-se de uma maneira tão íntima e profunda, esbarram em nós, como que procurando-nos, sustentando a busca desembaraçada que empreendemos para percebermos quem somos.
Lembro-me que a resposta que dava a mim própria nesse tempo já distante, era de que estaria disposta a muito pouco. Basicamente, a muito pouco. Estava aparentemente segura de que o que tinha, onde estava, o que sabia e, sobretudo, o que queria privilegiar na minha vida, não passava por me disponibilizar a mudanças de grande porte, em nome de um tão falado amor.
Dito de outro modo, não me via, na altura a que me refiro, a viver um amor com alguém que justificasse grandes mudanças ou alterações na minha vida. Queria convencer-me de que o amor que tinha conhecido, até então, me bastava. Queria esconder de mim mesma a verdade maior: a de que há muito tinha deixado de acreditar que esse amor que justifica a mudança (que, simultaneamente promove a mudança, o progresso, porque acrescenta a cada um dos amantes, conhecimento sobre si próprio e sobre a vida) teria algum dia, lugar na minha vida.
Resposta feita, concluída. Não se fala mais nisso! - disse-me em segredo - para não ter de perceber que, para além da minha descrença acentuada, o amor que tinha conhecido até então me tinha magoado a valer.
Lembro-me que me dizia que amar a um outro era algo de essencial para mim, mesmo que o retorno que desse movimento obtivesse, fosse escasso, insatisfatório. Na verdade, queria convencer-me de que deveria ser como mais ninguém, isto é, deveria suportar como bastante, amar, mesmo sem me sentir amada de volta.

Admito que dificilmente suportei perceber na altura que, para além da descrença que me habitava relativamente ao amor, obrigava-me a uma espécie de pacto com o diabo! Mentia-me! Atraiçoava-me! Submetia-me a uma indiferença que passou a ser de mim, para mim mesma. A um abandono repetido, intrangisente que, em surdina me dizia, insistindo, para que não me aventurasse. Achava eu que não valia a pena. O Amor. Eu. A minha vida. Não valia a pena...

Reflicto de novo, anos passados. Que sou eu hoje capaz de fazer por amor? Pergunto-me outra vez.
Dá-me vontade de rir, agora!
Desta vez não sei responder...

Quinta-feira, Maio 08, 2008

Despertar.

Há muito que aguardo um Sábio
Que me indique a hora, o lugar
Talvez mesmo o patamar
para onde posso progredir.
Certa de que ouço cantar,
Navego aos bocados por entre nuvens
Desfeitas, dispersas
Atenta ao sinal do devir.
Fruto da ocasião
Proposta a cena aberta,
Confio a caneta à madrugada
Escuto o som do mar,
abro o coração:

.........................................................
fico desperta...

Terça-feira, Abril 22, 2008

Another letter, baby!

"Preciso de acreditar que sou uma poetisa natural, ainda que reconheça não ter o talento devido (menos ainda, o esperado!) na arte da escrita literária.
Preciso de acreditar que saberás ler na minha des-conjuntura aquilo que, em tempos nunca vividos, recebo agora da tua presença real.
Preciso de exercer a minha modéstia a cada assentar do nível, que me esforço por colocar na parede da minha casa interior, bem como da minha sensatez, no movimento ponderado e leve necessário a esse gesto, para que possa dizer com clareza o que escuto viver, e me parece ser de uma beleza ímpar.
Dedico as minhas energias a espreitar pelas janelinhas que se abrem a cada instante, e me permitem ver o mundo que me revelas. Quero aprender contigo o manual completo da diferença. Descubro que o desconheço tanto quanto me fascina e atrai. Quero viajar entretanto, como quem desenha um novo mapa de referência, para me orientar na massa do planeta humano. Leio páginas seguidas de um romance eterno, enquanto me banho do sol que faz as delícias da minha cor. Procuro nelas, saboreando vidas alheias, contar os pedaços do meu imaginário, e cortar de vez com o passado já perdido. Quero construir contigo um barco de madeira, talvez uma casa à beira de um rio ou até uma nave espacial. O que importa mesmo é que seja um albergue, um abrigo, um lugar só nosso para onde podemos sempre voltar. De preferência, quero que tenha terra em volta para cravar lá as minhas mãos como quem amassa bolos-rei no Natal, semeando todos os dias alguma coisa que cresça e alimente a minha fé e vontade de poder continuar a confiar naquilo que me faz sentido... Adoro-te!..."

Segunda-feira, Abril 14, 2008

Voz.

Era uma vez um homem
cuja Voz me seduziu.
Letras soltas, risos dispersos,
beijos trocados com sabor a pimenta
enleiam-me na travessia da descoberta.
Cenas de filmes não vistos
num arrebatar da alma
prendem-me o coração
suspendendo em mim,
o tempo que corre...
Pára o relógio da história,
arranca o caminhar sereno.
Passeios à beira do Tejo
desvanecem a dúvida que resta...
Escuto o som da renovação e
segredo para mim mesma
que acabo de ler a sina da exactidão.

Quinta-feira, Abril 10, 2008

carta.

"Em dias de tempestade como o de hoje, resta-me escrever-te uma carta de amor.
Sim, de amor. Ouviste bem.
Sabes como sou, por vezes, mesquinha com a mania das palavras e do uso que teimo em querer que façamos delas. Gostaria que elas me servissem sempre, sempre como idealizei: que me servissem para expressar rigorosamente o que penso e sinto a cada instante.
Lembrei-me hoje, que em tempos te pedi que retirasses do vocabulário que usas a palavra amor, por algo que em mim, admito, talvez se possa assemelhar a uma espécie de pudor acerca do seu conteúdo. Estou certa de que nessa altura foi o pudor que me levou a tal solicitação. Contudo, devo pedir-te desculpas pela limitação a que, entretanto, te votei na expressão livre do teu sentir. Limitei-me a mim mesma sem pensar nisso, na recepção de algo que me dirigias e que eu, afinal, deconhecia.
Não, não vou questionar-me mais acerca do que esta palavra significa, ou a que conteúdos rigorosamente se refere, uma vez que importa agora que seja capaz de me desculpar pela forma grosseira e egoísta com que te tenho recebido interiormente. Na verdade, se o pudor me obrigou a rejeitar tal palavra, o orgulho impede-me com frequência de pedir desculpa.
Gostaria de te dizer que tens sido para mim uma enorme descoberta, mais do que uma grande aventura. A ignorância que experimento em face de cada nova aprendizagem que contigo posso realizar, convece-me de que me enganei à primeira vista. Mais do que um castelo na areia, ou de um fugaz encontro, talvez o que me tenha acontecido seja algo de superior que ainda não sou capaz de nomear.
Desculpa-me, amor. Desculpa-me..."

(...)

Quarta-feira, Março 26, 2008

Fé.

Há gente lá dentro,
há gente.
Ouvem-se passos pequenos,
vozes que brincam à gargalhada.
Enormes os risos que, soltos,
se cruzam encetando
a caminhada.

Gente que brilha p’la gente
almas que dizem de si.
Lá dentro,
é sério o movimento.
É amplo, terno
e pungente.
São as estrelas da vida
as luzes do amanhecer.
Há gente lá dentro,
há gente
que luta p’lo acontecer...

Quinta-feira, Março 13, 2008

Tu.

Conheço as linhas do teu rosto
como as da palma da minha mão.
Gosto de passear por elas
vagueando os dedos pequenos
procurando a cada gesto
agarrar a mão de deus...

Traços marcantes e belos
revelam o curso do tempo.
Rugas contadas de esperança
como pinturas rupestres
devolvem-me com exactidão
qual rigorosa sublimação
colinas, paisagens campestres...

Árvores, flores, bosques serenos
verdes
os detalhes pequenos
guardo-os escapando à razão. Adoro-os sem pudor
nem regra
nem sombra
oh! traço de perfeição...

Quarta-feira, Março 05, 2008

A porta.

palavras inteiras com gosto de roseiras bravas
ou um chá ao entardecer, palpitam coisas
serenas, grandes, seguras.
um verso pensado
dito em dia de sol escondido
resvala num toque inesperado
numa viagem sem destino marcado
ao abrigo de um cruzeiro que navega na madrugada.
os silêncios que definem a voz
ou a letra que se desenha no escuro
levam a que me curve perante o
século em que vagueio...

pontos de luz formam triângulos
às vezes círculos rectos e curvos.
ninguém escapa à linha mestra
à saudade cantada poética
ao abraço do costume.
é o hábito o tormento
a dor aquilo que se procura. é a chave da descoberta
aquela que mora e perdura
......................

deixa a porta aberta...

Terça-feira, Fevereiro 19, 2008

Ternura.

Bagas chovendo em circuitos abertos
devolvem-me o sabor do Verão e do Sol.
O líquido que delas se desprende quando as trinco
amaciam-me a alma
colorindo-a de tonalidades excitantes
pegajosas.
Escorre saliva p’la minha boca abaixo
pingando-me os seios descontraídos
desnudos:
Teus...

Alternadas quais ritmos incessantes repetem-se
palavras de Amor que refrescam
a paisagem dançante.
Os corpos fundidos ofegantes animam-se
disfrutam-se
enleiam-se apaixonados.

Animais à solta

Livres

Cabelos em tempo de vendaval
escrevem diários íntimos
indiscretos. Fascinam
pelos toques de branco que com o tempo
assumiram
riscando o preto original.
Fortes como amêndoas doces alimentam dedos
que se enrolam brincando
que se deleitam ao senti-los:
Meus...

Bolhas de sabão cheiroso massajam as peles já suadas.
Beijos partilhados à toa soam a miosótis
no jardim que imaginámos. Somos.
Queremos. Damos.

........

Sexta-feira, Fevereiro 15, 2008

Improviso.

(...)
a estrada estava vazia há horas. há dias. ninguém parecia querer lá passar e o luar que se arriscava no céu estava mais escuro do que o habitual
iluminado
apenas o portão velho que bate do outro lado da linha. ficou mal fechado da última vez e até hoje, basta uma leve brisa sorrir e ele bate bate bate amedrontado...
amedrontando
os gatos vadios que por ali vagueiam de vez em quando, quais Josefas encimesmadas beberricando água das mãos estendidas de alguém que lhes pega ao colo e as afaga no pêlo
despenteado... sons grotescos dispertam almas penadas perdidas ausentes de cor de ternura
terríficas abandonadas. dois alguéns em queda livre. em manutenção. em desvios serenos por ruelas sombrias históricas românticas. vadias... campas forradas de pó colocadas em fila
laranjas descascadas sumarentas e bolos aconchegam o sol que brilha de dia...
lâmpadas internas alumiam quais faróis indiscretos os recantos do olhar. é cedo. é hoje.
agora

Sexta-feira, Fevereiro 08, 2008

Paranoid Park.

(...)

"Movimento, por vezes alucinante, vibratório, ameaçador. Dinâmicas de imagem algo desconcertantes pela visão míope que nos provocam, pela visão desfocada num percurso de proximidade com distâncias “mal” calculadas. Melodias inesperadas, desconexas do contexto visual, mas que caiem bem. Muito bem. Curiosamente, caiem bem porque se vêem. Porque se transformam em quase-imagens rítmicas, como se fossem brincadeiras. Olhar revelador.Olhar inexpressivo. Olhar fixo. Sábio. Branco, de choque. Espaço entre o choque do vivido e o imaginário. Performances tranquilas quase nada treinadas, pelo menos aparentemente. Cenas sem ensaios prévios, quase quase espontâneas. Brilhantes, quotidianas. Claras, intensas, puras. (Conta-se uma história absoluta, de absoluto. De morte. De responsabilidade pelo outro. De culpa por imaturidade do olho que vê. Mas, também de lucidez. De enorme lucidez. De honestidade. De sapiência (insuspeita), não de horror. Insuspeita, porque ingénua ainda, por imaturidade do aparelho pensante, que se expandirá a partir da experiência quando ela tiver tamanho para ser contada. De uma beleza elevada, porventura alternativa. Artística. (Quase) perfeita humanamente)."

(...)